Eddie, o descolado

Se, um dia, a F1 foi descolada…

Nestes tempos tão artificiais, montados apenas pelo show business e pelas reações virtuais, quem viu aquele irlandês maluco e rebelde cruzando os paddocks mundo afora sabe que tudo que se vê hoje não é nem um tostão do que ele ornamentava dentro e fora das pistas.

Edmund, EJ, Eddie… irlandês da capital, um destes desvairados com trevo-de-quatro-folhas nas orelhas, um copo de Guiness na mão, uma camisa do lado verde do “Old Firm” e um orgulho nacional tipico da ilha celta. Como alguns poucos privilegiados do motorsport, o jovem bancário quis ser piloto, acabou chefe de equipe, saiu vitorioso das categorias de base e pousou na F1 com relativo sucesso.

História comum? Para Eddie, nada era comum, o que ele vivera nas esquinas do automobilismo não tinha precedente, e contado por ele mesmo sempre resultava em risadas, seja em conversas informais ou nas entrevistas que concedia, sempre com o jeito largado, despreocupado e tranquilo de um cara que, além dos negócios, queria viver a alta roda da velocidade a seu modo.

Santo? Longe disso, todo chefe de equipe da F1 não é um filantropo com atestado de bondade. Ele já teve momentos cruéis e tomou decisões que complicou alguns que cruzaram-lhe o caminho ou ele próprio, cravejando os tabloides de informes ora escandalosos ora tristes, tal como foi o golpe final que acabara com a história que criara num dourado 1991.

O Jordan “911” na mão de John Watson. Processo pelo nome do carro com a Porsche rendeu um carro zerinho. No fim, um projeto sólido e a prova que havia excelência e seriedade na pré-classificação

Alias, que história! Que histórias! Em um ano, Eddie acabou com um Porsche zerinho na garagem depois de um acordo processual com a marca de Stuttgart, caiu na mentira marota de um alemão com pinta de fenômeno e mostrou que ainda poderia haver excelência e seriedade descontraída em meio aos fantasmas funestos da pré-classificação. Ele não tinha vindo – ainda que dizem a contra-gosto – das categorias inferiores para perder viagem.

Depois do primeiro varão, rotas equivocadas, alegrias e decepções e um time que, pouco a pouco, passou de mera garagem para um dos rótulos da F1 no fim dos anos 1990: adotou um amarelo elétrico, com animais peçonhentos, insetos e outros ilustrando os bólidos em cada GP. A parada no box dele misturava trabalho com festa, as vezes dele próprio ou das moças que ilustravam o ambiente.

O mesmo ambiente descolado e jovial criado por Eddie também foi o primeiro de muitos que, de lá, se tornaram referencias na categoria. O alemão mentiroso, assessorado por um endinheirado Willy Webber, talvez tenha sido o mais marcante. Uma mentira sutil fez com que o fim de semana belga de 1991 trovejasse em torno de um nome longo que, primeiro, estampou o verde-irlandês daqueles elegantes bólidos.

Uma mentirinha marota e um bom negócio. Os “500 metros” mais impressionantes de um estreante na F1 naquele ano, quando Eddie teve um certo Michael no cockpit, em Spa

A passagem de Michael Schumacher por lá foi a de maior peso na garagem de Eddie, mas sem colocar para escanteio nomes que lá encontraram, se não um ponto de início de carreira, ao menos um lugar para curtir um pouco mais a velocidade da F1 sem o compromisso de ser algo maior.

Gente como Giancarlo Fisichella, Ralf Schumacher, Jarno Trulli, Heinz-Harald Frentzen, Eddie Irvine e tantos outros conviveram entre a festa e o começo de carreira que tinha o circulo do irlandês como impulsionador. Ao mesmo tempo, veteranos como Martin Brundle, Andrea de Cesaris, Damon Hill e Jean Alesi talvez não tivessem mais o compromisso de serem grandes, apenas emprestavam a experiência para Eddie correr… e vencer.

Foi assim no resta-um belga (Bélgica, sempre ela) de 1998. E é preciso dizer que não bastava apenas sobreviver, mas era preciso ter conhecimento e frieza dentro e fora do cockpit para vencer como foi aquela vitória. Lembrar hoje do tento de Damon Hill (1º) e Ralf Schumacher (2º) é quase um pano de fundo para tantos que lembram do grande dia de Eddie, que explodiu e viveu o dia mais louco da vida, entre caretas, bebedeiras e sorrisos.

Outra vez, a Bélgica, e a explosão da primeira vitória no resta-um (acima). A intensidade da Jordan na pista, dentro e fora dela, era um dos rótulos da F1 noventista e no começo do século XXI, o mais descolado, claro
Outra vez, a Bélgica, e a explosão da primeira vitória no resta-um. A intensidade da Jordan na pista, dentro e fora dela, era um dos rótulos da F1 noventista, o mais descolado, claro

Talvez, para o time, não lhe foi reservado o direito de ser grande, embora 1999 foi inesquecível para todos os envolvidos: Eddie e um irrequieto Frentzen, vivendo o melhor momento da carreira e, com atuações sólidas e duas vitórias no bojo, se creditando como um postulante ao titulo de um ano maluco. A infelicidade de um abandono na casa do piloto alemão e em outra corrida digna de resta-um foi o golpe doído, um sinal da derrocada.

E enquanto Frentzen lamentava, na festa de Nurburgring exultava um alegre Rubens Barrichello, vivendo o grande dia da Stewart mesmo não sendo ele o vencedor. Em meio a tantos botas de igual ou superior quilate, Eddie não podia mentir nas reminiscencias da vida que tinha uma gratidão enorme a um brasileiro, independente se a relação com o filho do Rubão não tenha sido a melhor nos fins de estadia na casa irlandesa.

Rubens, um grande que merece palmas em vez das tacanhas chacotas, foi uma daquelas crias que veio de encontro à Eddie ainda em tempos nebulosos. Estrondou em 1993 fazendo o que podia com um bólido frágil, deu-lhe o primeiro pódio e a primeira pole no ano seguinte e só não foi grande por esquecer da equipe nos seus ímpetos de grandeza que terminavam em furadas frustrantes.

Rubens Barrichello teve em Jordan a primeira porta aberta na categoria. Para o time também, os primeiros grandes momentos no certame, como no temporal de Donnington, em 1993 (abaixo)

Em alguma cadeira da casa que tinha na Cidade do Cabo, na Africa do Sul, talvez Eddie refletisse tudo o que viveu nesta luta cruel contra o maldito câncer: vitórias que lhe escaparam ou que vieram duas semanas depois, pilotos que o tinham gratidão ou ódio mordaz, lances assustadores ou músicas inesquecíveis tiradas na fiel bateria nas festas em Silverstone. Passagens que dariam um livro misturando memória e risadas de uma F1 verdadeiramente descontraída.

Esta Aston Martin asséptica e moldada na frieza de hoje jamais terá o mesmo simbolismo dos bólidos amarelos e afins que o bancário irlandês levou a pista misturando seriedade e descontração, risos e gritos, vitórias e derrotas, as coisas que fazem parte do jogo mas jogadas com singularidade e autenticidade.

Se, um dia, a F1 foi descolada, o culpado foi Eddie Jordan. E como aquele time, não vai ter igual. Aprendam, novatos, o que era, de fato, um fim de semana verdadeiramente cheio de atitude, estilo e descontração, porque a história ficou, o Eddie não está mais aqui na festa.

God bless, Eddie!

  

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