Ainda sobre “esquecíveis”: Alliot, Le Mans, Zanardi

Philippe René Gabriel Alliot.

Francês de Voves, piloto de F1 e de endurance nos tempos áureos.

Um coadjuvante na categoria máxima, seu melhor resultado em 117 corridas foi um modestíssimo quinto lugar no GP de San Marino de 1993. Em quatro equipes em que serviu como piloto por lá (contando-se uma insólita passagem pela McLaren em 1994), apenas sete pontos e alguns momentos desastrados na pista que marcaram a carreira de forma negativa.

Já no endurance, um bom servidor, rápido por sinal e muito útil sobretudo a marca do leão hoje no guarda-chuva da Stellantis. Foram quatro marcas defendidas, mas pela Peugeot as passagens mais marcantes, mesmo não conquistando vitórias. Dois de seus quatro pódios na prestigiosa 24 Horas de Le Mans foram galgados com a Peugeot, em tempos vazios e ainda saudosos dos esporte-protótipos.

Um esquecível? Pergunto para você sem falta modéstia e me mostrando um teimoso no assunto. E você talvez ousaria dizer que sim.

Vi por estes dias um infeliz resumindo a carreira do combalido Alliot a um jocoso “detestável” em um comentário qualquer das redes. Curto, pequeno de pensamento e limitado de visão, clássico de quem resume carreiras ao lado esquecível da coisa e que crucifica sem antes analisar com mais profundidade.

1993, na Larrousse, o melhor resultado de Alliot na F1: quinto lugar em San Marino
A insólita passagem pela McLaren, em 1994
Na Peugeot, nos anos derradeiros do esporte-protótipos: algumas das maiores glórias da carreira

Olho para trás e ainda reverbera o feito de Robert Kubica em Le Mans, talvez o mais legal da década até agora. Sem colocar de lado o pioneirismo de Yifei Ye ou a velocidade de Phil Hanson, mas privilegiados os dois ao ter consigo a história viva de superação impressa no pulso magro e de aparência quase cadavérica que o polonês carrega como estigma e prova de limite superado.

Veloz na categoria maior, com uma vitória e bons momentos, teve Kubica de sobreviver a um terrível acidente em uma prova de Rally para mostrar o valor da vida e da vontade de viver velozmente. Na F1, voltou para dizer que podia e no endurance veio para provar que ainda sabia ser astuto e esperto. Foi a grande conquista do ano, uma das grandes histórias da velocidade em tanto tempo.

Seria Kubica um “esquecível” ou um “lembravel” instantâneo por, simplesmente, ter sido um piloto de F1 em outro tempo? O julgamento raso de muitos ainda permeia este ponto e, com certeza, tornará o valente polonês uma atração na prova de São Paulo, em julho.

O milagre de São João Paulo II: Robert Kubica escreve, junto de Phil Hanson e Yifei Ye (abaixo), a história maior do motorsport de 2025, quando a vitória em Le Mans mostrou a volta por cima do polonês, das sombras à glória

Kubica e Alliot, o abismo de tempo e talento pode ter diferenças até discrepantes, mas é ainda justo deixa-los no oculto por não serem da alta prateleira da F1? E o que dizer dos ditos “esquecíveis” da Indy? Já que a mira da espingarda aponta à eles.

Falei rapidamente deles na última crônica, mas aqui permite-se uma abrangência maior: nem sempre o sucesso na Indy representou vitória na F1, como Jacques Villeneuve o fez. Quem quis dar este passou, por vezes, passou como coadjuvante e, hoje, é um geraldino qualquer na visão torpe de uns e outros.

Grave erro: mesmo em tempos de crise técnica, relegar a IndyCar a um posto inferior é ignorância pífia que vem desde o tempos da briga de audiência de Globo X Band ou Manchete ou SBT. Villeneuve talvez seja um ponto fora da curva como Mario Andretti ou outros o foram neste intercâmbio.

Mas, e Alessandro Zanardi? Na régua dos esquecíveis, seria um depois do “estrago” que fez na Indy?

O italiano, exemplo de superação no esporte depois de um duplo horror na vida, viu na Indy o caminho para vencer e ser grande, impressionante, imparável. De manobras arrojadas a tempos dominantes, coisa que nunca conseguia fazer na categoria máxima, mas que jamais arranharam o prestigio que conquistou, sobretudo a quem analisa o automobilismo com a justiça certa e assertiva a cada caso.

O imparável Alessandro Zanardi, ainda superando um último trauma neurológico recente somado a grande ferida que sofreu anos antes, perdendo as duas pernas na antiga ChampCar: Atleta, veloz, exemplo
Na Indy, o sucesso que nunca veio na F1 para Zanardi: arrojado, veloz, alucinante nas tardes que vencia com o vermelho-Target da Chip Ganassi (abaixo)

Não queria ter voltado a este assunto, mas os debates inócuos de quem só caça clique e aumenta o ego não podem ser o norteador de quem foi “o bom” e quem foi o dito “esquecível”. A régua jamais pode ser apenas UMA categoria, mas aonde o automobilismo se faz destaque lá terão seus grandes, retirantes de uma prateleira maior e que, lá, encontram guarida e força para mostrar sua habilidade em cada curva.

O raso das temáticas jamais pode apagar o que profissionais da pista anotam de gloria em suas carreiras e diante dos olhos dos verdadeiros apreciadores da velocidade que ainda existem e ainda surgem. É preciso parar de separar e começar a analisar de verdade, e com um plus maior: por trás de um dito “esquecível” existe uma grande história, talvez tão fantástica quanto aqueles que você coloca como lembráveis.

No mais, é apenas baboseira seguida para caçar cliques. E quando ao combalido Alliot, que me perdoe as brincadeiras que fiz a ele por tempos, ele merece meu respeito pela obra que escreveu e pelas memórias que viveu.

Verdadeiro “lembravel”, sempre Philippe Alliot.

Em 1993, uma das glórias de Le Mans para Alliot, aqui junto de Thierry Boutsen, Eric Helary, Christophe Bouchut e um ainda “iniciante” Jean Todt, o cérebro da empreitada.

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