Ferrari F80, nostalgia e metalinguagens

Há poucos dias a Ferrari fez algo que faz – muito bem, diga-se de passagem – de tempos em tempos: chacoalhou o mundo dos supercarros com seu mais novo flagship: a F80. Mesmo não sendo dos maiores fãs da marca (por favor, não me apedrejem e nem me chamem de herege), reconheço que os vermelhos têm total importância no mundo automotivo e no automobilismo. E é inegável que o novo supercarro de Maranello traz uma carga nostálgica e um punhado (e bota punhado nisso!) de metalinguagens.

Uma Ferrari vermelho-escarlate com “viseiras” pretas nos faróis, formato em cunha e linhas baixas. A nostalgia grita no último volume

Mas antes de continuar com o texto, vale uma sugestão? Pare rapidinho a leitura, abra o Spotify, Deezer, Youtube ou o que for e ponha “Running Wild” de Robert Parker para tocar. Essa música transmite muito da essência que esse texto quer transmitir. Juro!

Dito isto, vamos primeiro falar um pouquinho do esperado de um supercarro da Ferrari: como qualquer apaixonado por carros (e por esportivos) gosta, a ficha técnica da F80 fala por si. Um V6 3.0 turbo-híbrido que, sozinho, rende saborosos 900 cv. Aí entram nessa os três motores híbridos (dois na dianteira e um na traseira. Sinal dos tempos, amigos…) que colocam mais cavalaria na brincadeira para totalizar 1.200 cv. E pra administrar a diversão o câmbio é de dupla embreagem e oito velocidades.

Mesmo derivado da 296, o motor da F80 foi afinado para chegar a estratosféricos 1.200 cv

Simplesmente ela é a Ferrari de rua mais potente da história, honrando o legado de 288 GTO, F40, F50, Enzo e LaFerrari. Ah, só para quebrar um pouco o encanto: o motor não é exclusivo, veio da Ferrari 296, apesar da potência extra de 240 cv. Mas aí esse encanto volta com tudo quando você descobre que os 100 km/h são alcançados em 2,15s (!), os 200 km/h são quebrados em 5,75s (!!) e ela só para nos 350 km/h (!!!) porque é limitada eletronicamente.

Para encurtar um pouco o “tecniquês” (que seria departamento do nosso confrade Milton Rubinho), ela engloba ainda outras características apetitosas: suspensão ativa (herdada da SUV Purosangue), chassi de fibra de carbono no teto e alumínio nos subquadros dianteiro e traseiro e três modos de condução, chamados Hybrid, Performance e Qualify, com o terceiro contando com uma tecnologia chamada Boost Optimization. Depois de uma volta em pista (melhor lugar para um carro desses, convenhamos), o programa “mapeia” os melhores locais para oferecer impulso extra (tipo uma reta Mistral ou Musslane…) e baixar ainda mais os tempos de volta

Deja-vu metalinguístico

Explicada um pouco a monstruosidade da F80 em termos técnicos, vamos ao que pegou eu e muita gente na hora que o carro foi lançado. Ela é um apanhado de referências e metalinguagens pra muita coisa! Desde a história da própria Ferrari, passando pela aeronáutica e até mesmo outras montadoras automotivas e a cultura Cyberpunk!

A casa de Maranello, ao lançar o bólido, admitiu que buscou inspiração na própria história, mas dando personalidade no design. Elementos como as “viseiras” dos faróis remetendo à 365 GTB/4 Daytona ou os arcos de roda traseiros inspirados na F40. Além de o fato de a traseira ostentar novamente uma asa – por mais discreta que seja – ampliar ainda mais essa carga nostálgica. Afinal, com perdão aos mais jovens, mas qualquer quarentão ou cinquentão que ama carros e corridas associa imediatamente uma asa na traseira de um esportivo a alto desempenho. Só pra lembrar, estou quase lá com meus 36!

A visão de uma Ferrari com asa traseira e lanternas horizontais remete ao passado mais clássico possível da marca

Tudo isso já fez brilhar os olhos dos fãs mais velhos de supercarros que viram ícones como as próprias F40 e F50, o Lamborghini Diablo ou o McLaren F1. Além do mais, o nome “F80” não só é mais bonito que um “LaFerrari” da vida como evoca uma digna sucessão os flagships mais icônicos dos vermelhos. De quebra, os aficionados pela cultura aeronáutica percebem uma alegre coincidência de nome a um caça americano dos anos 50. Sim, houve um F80, mais precisamente o Lockheed F80-C Shooting Star, usado na Guerra da Coreia e que, pasme, fez parte da Força Aérea Brasileira!

Aos fãs de aviões, o nome F80 remete a um icônico caça usado, inclusive, pela nossa Força Aérea Brasileira

Não bastasse isso tudo, a referência de design acaba transpassando os portões de Maranello e “conversando” com outras montadoras e culturas. Numa conversa informal com um amigo, ele falou “se me dissessem que a F80 era o renascimento da Vector eu acreditava”.

Um supercarro de potência estratosférica, baixo e de linhas angulosas. Este é o Vector W8, que se fosse reencarnado hoje em dia certamente teria muito a ver com a F80

E cara, não é que faz todo sentido? A marca americana de vida curta foi reconhecida por seus carros baixos, de design anguloso e “afiado”, bem no jeito que a nova vermelha é. Duvida? Olha acima a foto de um Vector W8 (vermelho, ainda por cima!) e vê se não há similaridades. Só pra frisar, lá em 1989, quando ele saiu, rendia 625 cv em um poderoso V8 6.0 biturbo num tempo onde os supercarros mais poderosos não batiam os 500 cv. Ou seja, tão colossal quanto a F80 é hoje em dia.

Eis o Quadra Turbo R V-Tech no jogo Cyberpunk 2077. Alguma dúvida de que a F80 abraçou o design “retrofuturista” com gosto?

E completando a brincadeira, outra conversa informal – esta no ambiente de trabalho – rendeu mais um curioso paralelo. Soltaram um “esse carro podia aparecer no Cyberpunk 2077”. E este reles escriba daqui, como gamer aficionado (que não consegue parar para jogar há quase 2 meses, mas, ainda assim, aficionado), já gastou boas horas jogando a obra da CD Projekt Red. E dando uma nova olhada nos veículos da fictícia Night City de 2077 é inegável mais uma “conversa” de design, esta certamente involuntária, do pessoal de Maranello com o jogo. A F80 como DLC para este jogo, até de repente como um carro secreto ou algo assim faria todo sentido, já que ela custa “módicos” € 3,6 milhões ou R$ 22 milhões no nosso nada fácil mundo real.

Se a LaFerrari já não brilhou tanto como o esperado, a chegada da F80 a deixa ainda mais esquecida. Coitada…

No fim, não é absurdo falarmos que a Ferrari conseguiu fazer algo singular com seu supercarro: carregou uma infinidade de tendências e metalinguagens em um mesmo produto e, numa mistura bem divertida entre o clássico, o moderno e o retrofuturista, lançou algo que já chegou atemporal como esperávamos de um flagship da marca (não, LaFerrari, você não entra nessa conta!). Palavra do jornalista da equipe que mais torce o nariz para os carcamanos de Maranello!

 

Pedro Ivo Faro

@p.f.4736  – Instagram – Jornalista vascaíno, fã de jazz, viciado em café e apaixonado por qualquer coisa que tenha motor e ande rápido. Sou membro do G&M mais ligado em carros de rua, ajudando tanto nas editoria de esporte a motor quanto nas experiências que vivemos nas ruas e avenidas. Com a experiência de quem trabalhou – e trabalha – no setor, sempre trarei novidades por aqui!

 

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