Composto Máximo

Como se “fabrica” um profissional de alta performance? Um esportista vencedor, um habilidoso piloto? A receita não se sabe. É sabido somente que exige, além de dinheiro, tempo de maturação e sudorese, como tudo na vida.

Hoje em dia existe a febre dos coachs, profissionais que prometem ajudar pessoas a se desenvolver em todas as facetas. É preciso saber, porém, que querer não é o suficiente. Muitas vezes a vontade é cruelmente subjugada pela questão: Tens talento ou não? Existem teorias das mais diversas que os supracitados profissionais vomitam a esmo em palestras, com metodologias das mais diversas, com “pilares”, objetos, compostos, temas, foco, ação e resultado, mensuração, avaliação, et cetera…

Max Verstappen é hoje, sem sombra de dúvidas, um profissional. E dos bons. Compenetrado, focado, ativo, talentoso e competente. Nem parece fazer já tanto tempo que era possível vê-lo construir sua carreira rumo à Formula 1 com pressa. Sua participação no primeiro treino livre do GP do Japão de 2014, aos 17 anos e três dias de idade, foi marcante por conta da sua precocidade (era o mais novo piloto de sempre a guiar um carro da categoria), mas também pela sua demonstração de familiaridade com o negócio.

Aquela tarde em Barcelona, no ano de 2016 prenunciava algo tão grandioso como o que estamos testemunhando? Era impossível dizer. É correto afirmar que, ao acompanhar o andamento de sua carreira no kart e na Fórmula 3 observamos que sua competência era moldada com pinceladas suaves do talento natural herdado da mãe, Sophie Kumpen, exímia kartista, mas também com marteladas violentas do pai, Jos Verstappen, que foi apenas um piloto regular e que geriu sua carreira com mão de ferro. Hoje em dia, é conhecida a história de que Jos teria deixado o ainda menino ir embora a pé dos kartódromos por conta de derrotas ocorridas, entre outras formas menos pedagógicas que, se não o prejudicaram de imediato, também não é possível afirmar que foram benéficas. O certo é que esse tipo de coisa dá forma à personalidade, ainda mais se falando de esportistas de alta performance.

Max demonstrou muita impetuosidade nos seus primeiros anos. A sua equipe àquela altura não possuía o melhor carro, e ele transparecia pressa em acumular vitórias. A titânica batalha com Hamilton em 2021 deu amostras de que ele estava disposto a tudo para vencer. Ainda que o final se deu de forma controversa, é impossível não reconhecer o valor de um troféu que foi conquistado de forma árdua. 

Do primeiro embate entre os dois (curva Tamburello, no Gp da Emilia-Romagna), passando pelo choque em Silverstone e o entrevero de Monza, o que ficou claro é que ele não daria nenhum passo atrás em busca de seu objetivo. Assim, é muito raso afirmar que hoje ele só vence porque conta com o melhor carro. Hoje em dia ele está numa posição de extremo conforto, mesmo levando-se em conta o turbilhão gerado pela polêmica entre os mandantes do time.

Max Verstappen está no seu ápice de piloto. Mas o ocorrido nos bastidores da equipe Red Bull deixou uma cicatriz que não dá sinais de ser curada, pelo menos a tempo de talvez impedir o desastre de perder um campeonato que dava claros sinais de estar ganho já nas primeiras etapas.

Em meio ao turbilhão e clima pesado na equipe, Max talvez estará ainda mais sozinho com sua pilotagem. Claro que isso não interferirá no seu ofício, mas ainda que ele esteja ali absorto em seu cockpit e só preocupado em ser cada vez mais rápido, ver o seu invólucro se dissolver parte a parte pode sim ser um convidativo a buscar novos ares.

O prognóstico para o próximo ano, sem a batuta de Adrian Newey não é tão bom. Já neste ano foi possível observar que sua ausência cobrou um preço caro. Sua preocupação reside ainda na incerteza de como será o powertrain desenvolvido pela própria Red Bull e pela Ford. Por isso mesmo, os rumores de sua ligação com a Mercedes estão longe de ser mera especulação.

 

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