Liberty e MotoGP: o que esperar

Para o bem ou para o mal há que se admitir: desde 2018, quando a Liberty Media, um imponente conglomerado estadunidense de companhias voltadas para a promoção de eventos e mídia assumiu a gestão da Formula 1, esta nunca mais foi a mesma.

De formato gerencial engessado e preso aos moldes europeus e, por assim dizer antiquados e ultrapassados de Bernie Ecclestone, o antigo dono, a categoria era sim poderosa e multimilionária, mas era também modesta em explorar o seu grande potencial midiático. Havia uma base de fãs muito sólida e dedicada, mas fortemente ligada às tradições de um público que a conheceu em formatos antigos de promoção e publicidade. Eram os fãs de automobilismo em geral que passavam a paixão de pai para filho e que sabiam da existência das corridas muito antes da popularização da internet, por exemplo.

Neste contexto, e para entender os setenta e cinco anos de história deduzidos dos últimos sete, é possível se deparar não mais com uma categoria esportiva de esporte a motor mas sim com uma marca global de forte apelo comercial. F1, Fórmula 1, Formula One e outras derivações reverberam como sinônimo de energia, velocidade, excitação, emoção, adrenalina, competição, vitória, glória, tragédia e o que mais de atributos for preciso.

É impossível não citar nessa análise o fenômeno Drive to Survive, a série da Netflix que fez uso de muito deste potencial midiático ao transformar os pilotos, antes relacionados ao papel de esportistas e, em muitos casos somente a isso, em personagens com enredos, agora vistos como verdadeiros superstars.

Drive to Survive: Série da Netflix trouxe novos e engajados públicos

Rumores desde 2023 indicavam que a Liberty estava estudando adquirir também a MotoGp, que é administrada desde 1992 pela Dorna Sports, companhia espanhola de entretenimento que, há que se reconhecer, fez um trabalho muito competente (e parecido) com o do grupo americano. As corridas de moto eram relegadas a certames um tanto quanto desorganizados e pouco explorados internacionalmente. Havia um esforço de se promover as provas como algo comercialmente viável e lucrativo, mas quase nunca chegava ao patamar que o mesmo Ecclestone havia chegado. A Dorna enxergou por exemplo, a oportunidade de levar o mundial aos locais onde havia uma surpreendente base de fãs: o Sudeste Asiático. Entre 1992 e 1996, instaurou-se a prática de se realizar provas de MotoGP na Malásia e na Indonésia, mercados sempre efervescentes no que se diz respeito à venda de motocicletas. Seguiu-se ainda o surgimento de Valentino Rossi, piloto de enorme carisma que despertou a atenção do público em geral e ajudou na popularização do que já estava consolidado.

Estes rumores foram confirmados em Julho de 2025, quando o Parlamento Europeu aprovou a aquisição por parte da Liberty. O conglomerado agora é dono das principais categorias do esporte a motor do mundo, nas quatro e nas duas rodas. Existe uma grande expectativa sobre o que poderá vir a seguir, haja visto que o potencial a ser explorado no universo da MotoGp é ainda maior do que aquele encontrado na Formula 1, por conta de que o trabalho já feito pela Dorna a colocou em dados momentos em papel de maior relevância (em termos de exposição e base de fãs) do que a própria Formula 1. Exemplos: a MotoGp era difundida em mais países, por ter acordos comerciais de retransmissão televisa mais baratos, a adesão da MotoGp à plataformas de vídeos, website e posteriormente de redes sociais era muito maior do que a tímida incursão da austera Formula 1 nos novos meios que a internet trouxe.

Tendo como base a exploração comercial e midiática, foi possível observar que a Liberty fez uso do território inóspito de sempre da Formula 1: o publico norte-americano. Acostumado aos esportes de seus próprios domínios e visão cultural também própria, este público sempre relutou em aderir às chamadas por eles corridas de grand prix, ainda que tenham ocorrido ao longo dos anos contatos importantes, como a inclusão das 500 milhas de Indianápolis no campeonato da Formula 1 e com a participação de muitos pilotos europeus com direito a vitórias marcantes no Brickyard: Jim Clark em 1965, Graham Hill em 1968, só para citar exemplos mais conhecidos e também o fato de que pelo menos uma etapa (por vezes até duas) do campeonato da Formula 1 fora disputado quase que ininterruptamente até a década de 1980. A reaproximação, após nove anos de ausência se deu justamente em Indianapolis, que foi sede do Gp dos Estados Unidos entre 2000 e 2007. É verdade que o fatídico Gp de 2005, onde só correram os seis carros com pneus Bridgestone contribuiu para manchar a imagem e gerar ainda mais desinteresse do esporte por lá, bem como a ausência de pilotos americanos no grid.

Com a Liberty já se observa uma mudança significativa nessa tratativa nos últimos anos: instituíram-se corridas em Las Vegas e Miami, com o claro intuito de promover novos eventos e fazê-lo chegar a novos públicos. O próprio movimento gerado por Drive to Survive e o crescimento exponencial em volume midiático das mais de vinte corridas por ano (outro ponto a se observar) culminaram em F1: The Movie, adaptação cinematográfica lançada neste ano de 2025, com enorme sucesso. Para a MotoGp, não se espera algo diferente: a categoria das motos já tinha como prática ainda com a Dorna a procura de novos países para sediar grandes prêmios e também buscou expandir o número de provas, adotando desde 2023 as Sprint Races, assim como na Formula 1, com a ressalva de que, ao invés de determinar provas pontuais ao longo do calendário, a MotoGp foi mais radical e institui rodadas Sprint em todas as etapas, dobrando o número de provas válidas pelo mundial. Esta determinação a princípio desagradou boa parte dos pilotos, pois o trabalho foi dobrado e também há que se lembrar dos riscos muito mais intensos a que os mesmos foram expostos. Pode-se dizer que isso tudo vai de encontro com a cultura americana de gerenciar esportes – observa-se o conceito de “series” em diversas modalidades: Nascar, NBA, NFL só para citar alguns, em que o campeonato é recheado de inúmeras provas ao longo do ano e é divulgado e promovido de forma intensa para as televisões.

F1: The Movie – Longa de 2025 deu exata noção de como a categoria havia chegado a novos níveis de exposição na mídia.

Visualiza-se com otimismo o horizonte que a Liberty tem com a MotoGp: a incursão pelos Estados Unidos encontra um cenário favorável: a categoria sempre foi muito mais difundida por lá, muito por conta dos sete campeões, que numa primeira era, entre 1978 e 1993 arremataram treze taças: Kenny Roberts (3), Freddie Spencer (2), Eddie Lawson (4), Wayne Rayney (3), Kevin Schwantz (1) e depois ainda vieram os títulos de Kenny Roberts Jr e Nicky Hayden. Os pilotos da década de 1980 migravam para a Europa após os corriqueiros êxitos em Daytona e no AMA Superbikes e se estabeleceram como estrelas do mundial bem numa época de grande repercussão, a era de ouro das 500 cilindradas.

O trágico acidente de Rayney em 1993, que o confinou a uma cadeira de rodas e a subsequente aposentadoria de Schwantz foram ao mesmo tempo do início da dominação de Mick Doohan e do surgimento de novas estrelas. Kenny Roberts Jr obteve um surpreendente título na temporada 2000 e pareceu reacender o interesse americano. Também surpreendente foi o último campeonato, o de Nicky Hayden em 2006, bem em meio ao auge de Rossi. Nesta época, o retorno de Laguna Seca como etapa do mundial e também o Gp de Indianapolis foram um sinal de que a Dorna estava de olho no potencial da América do Norte.

Anunciada no fim de semana do Gp da Áustria, a criação da Harley Cup, a ser disputada em rodadas duplas a partir de 2026 fazendo parte da programação com seis etapas, certamente fará com que a adesão deste público receba um incentivo enorme, pela integração do mundial com a lendária marca americana.

Anúncio da Harley Cup, a ser disputada a partir de 2026 gerará novo impacto à MotoGp

No que diz respeito aos pilotos de MotoGp, estes já vêm, há um bom tempo, sendo personagens de destaque, mesmo porque a pilotagem de uma moto em alta velocidade já os deixa em posição destacada, denotam maior demanda de coragem e exposição, garantindo o espetáculo para quem vê. Valentino Rossi deixou ainda uma marca indelével no coração dos fãs, com exibições espalhafatosas seja nas provas ou nas suas comemorações. Nos dias atuais, Marc Marquez é o pilar central de atenção, sendo seguido por milhões de fãs em redes sociais, por conta também de ter uma história muito interessante de vitórias e superação, uma personagem com todos os atributos para promover a categoria como marca e explorar ainda mais o que a categoria significa para os fãs de corrida.

Marquez: referência da categoria para os atuais e futuros pilotos em performance na pista e como ser o pilar de comunicação

Uma nova leva de pilotos, cada vez mais precoces e afeitos aos meios modernos de comunicação fornecem o material perfeito para a Liberty explorar. Quase que de forma unânime dedicam boa parte do seu tempo não só para treinos e pilotagem mas também para promover e gerar informação, sempre em busca da relevãncia. Dentro das pistas, fazem uso de comemorações cada vez mais irreverentes e procuram quase sempre uma aproximação maior com o público, o que já era coisa comum mesmo antes (e de forma muito mais significativa que a própria Formula 1).  A MotoGp terá, junto da Liberty o potencial para se tornar uma grande marca e transformar aquilo que antes era “somente” corridas de motos em um novo grande ativo de mídia e comunicação, assim como a conhecida categoria de quatro rodas.

 

 

 

 

 

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