Mach 5: Inspirações de um carro campeão (da TV)

Me peguei vendo Speed Racer novamente…

Minha infância interior sorri por um momento! Aos oito anos de idade, tive contato pela primeira vez com aquele que, ao menos no mundo das animações, era o maior piloto de todos os tempos.

Speed era o primeiro japonês “campeão do mundo” em quatro rodas. Surgiu no tempo em que as grandes marcas da terra do sol nascente ainda sonhavam em ser rápidas. Honda e Toyota ensaiavam sair das pistas de casa para o ocidente, o fariam bem depois do filho de Pops o fazer das mais variadas – e mirabolantes – formas.

Tatsuo Yoshida, um dos pioneiros dos animes no Japão: inspirações no cinema e em carros do ocidente para conceber o Mach 5
Um dos quadrinhos dos mangás de Yoshida com Go Mifune (Speed Racer): aqui, diante do “Corredor X”, ou Rex Racer, o irmão que fugiu de casa

Diante de Go Mifune (seu nome nipônico), o retrato do misto de perigo e audácia dos anos 1960 no automobilismo. O criador da série, Tatsuo Yoshida, pode ter abusado na imaginação na hora de inventar aventuras para Speed, sua família e amigos, mas a realidade de acidentes pavorosos e pistas perigosas (mesmo as mais fantasiosas) não deixaram margem fora da realidade.

Alias, Speed Racer é cercado de mil inspirações fora das pistas que tornariam a série de mangás e de TV um sucesso infantil e símbolo cult dos animes. Redescobrindo a série como fiz por estes dias, a pergunta que começou a me coçar a cabeça foi diante do mítico Mach 5, o bólido que era o espelho das invenções que começavam a cercar o automobilismo naquele fim de década.

Yoshida misturou dois filmes, um cantor e um ator e dois superesportivos, um de pista e outro da rua. Para conceber Speed, por exemplo, o mangaká inspirou-se em Elvis Presley, sobretudo na passagem do Rei do Rock no filme “Viva Las Vegas”, onde justamente interpreta um piloto. Já o sobrenome da familia de Speed no Japão, Mifune, vem de uma lenda dos filmes de samurai: Toshiro Mifune.

A face do campeão: feições do Rei do Rock e sobrenome de lenda dos filmes de samurai

 

Elvis Presley e Ann-Margret juntos em “Viva Las Vegas” no Elva Mk6 com motor Maserati. Filme é uma das inspirações da série
Toshiro Mifune, lenda dos filmes de samurai japoneses. Sobrenome emprestado para a família do piloto

Mas a concepção do Mach 5 é instigante, ainda mais para nós que vivemos procurando a origem de bólidos lendários, e ai Yoshida foi ainda mais ousado. No filme de Elvis, o cantor usa nas pistas um diminuto protótipo Elva Mk6 com motor italiano puro-sangue Maserati. As linhas do pequeno esportivo podem ter contribuído para o desenho final do carro de Speed, mas não apenas ele.

Há sites que também dizem que a inspiração do mangaká teria sido a Ferrari 250 Testa Rossa, tricampeã de Le Mans e a versão mais plausível para um carro ter inspirado o Mach 5m, inclusive o ronco do motor que emula, ligeiramente, um 12 cilindros. Outras fontes atribuem a aerodinâmica sofisticada (embora corpulenta) do carro a inventividade dos modelos Chaparral, que naquele fim de década começavam a se tornar marcantes na série Can-Am.

Ferrari 250 Testa Rossa: fontes o indicam como uma das inspirações do Mach 5
A inventividade dos Chaparral também contribuiu na inspiração de linhas do bólido de Speed. Na foto, o 2E, de 1966

Só que, quem lembra, sabe que o Mach 5 (alias, o nome de Speed e o número #5, no Japão, são a mesma coisa em kanji) não é apenas um carro de corrida imbatível em qualquer pista, terreno ou afim. Veio do lendário agente 007 a ideia de inserir nele todas as formas de instrumentação extra possível: o Aston Martin DB5 de James Bond, que aparecera pela vez primeira em “007 Contra Goldfinger”, terceiro da série.

Leve, de manobras suaves, veloz e elegante, o modelo britânico tinha a serviço de sua majestade na película equipamentos como metralhadoras, cortadores de pneus, jatos de óleo, placa giratória e assento ejetor, o que o fez também ganhar a imaginação de muitos que viam nele um símbolo da espionagem e da audácia naqueles tempos de Guerra Fria.

Speed, que não era apenas um piloto arrojado mas uma espécie de “agente secreto de capacete”, tinha no Mach 5 a melhor arma possível. Os famosos sete botões no volante acionavam vários elementos que, para qualquer bólido até mesmo dos anos 1960 eram impensáveis: macaco para saltos (A), rodas de tração 4X4 com couraça (B), serras circulares na dianteira (C), para-brisa e capota blindados e vedados (D), faróis infravermelho (E), equipamento de mergulho (F) e um robô/drone teleguiado (G).

Sean Connery e o Aston Martin DB5: carro do espião e seus engenhos secretos foram o fascínio do cinema e dos amantes de carros velozes e de estilo
Os engenhos escondidos nos botões do volante do Mach 5: Speed era, além de piloto, um 007 de capacete (Editora Abril)

A série original contou com 52 episódios e foi ao ar, pela primeira vez saida dos mangás, em 1966 na TV japonesa. Um ano depois, ganhou a adaptação para o inglês e chegaria ao Brasil pela Rede Tupi, dentro do Clube do Capitão Aza, nos anos 1970.

Releituras foram feitas mas o clássico, requentado por anos, ainda instiga a fantasia curiosa de carros voadores, corridas impossíveis e vilões que, hoje, soam caricatos, mas naquele tempo imaginativo, eram temerários para os pequenos espectadores.

A mistura de elementos que compõe Speed Racer só torna a animação ainda mais cativante, sobretudo quando, numa altura da vida, não nos contentamos apenas em acompanhar as aventuras e corridas que o jovem nipônico se coloca pelo mundo, buscando vencer com lealdade e ser o maior de todos.

Apenas pequenas páginas infantis sob quatro rodas que fazem a gente entender porque esse mundo da velocidade nos fascina há tanto tempo. E Speed Racer é um desses ídolos do passado, daqueles que faziam parte de nossas imaginações e brincadeiras pueris de outros dias.

E as vezes, a gente se pega gritando mentalmente: Vai, Speed! Vai!

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