Sempre foi muito sugestiva a análise feita acerca da vida de esportistas de alta performance, pelo óbvio fato da curiosidade latente em se descobrir características e segredos que fazem com que os vencedores tenham constante sucesso.
Neste contexto, dois personagens, um do universo da Formula 1 e outro da MotoGP, carregam semelhanças que vão além do sucesso: trajetórias marcadas por uma série de fatores que os ligam e fazem acreditar que um raio não cai somente uma vez no mesmo lugar. E no mesmo esporte.
Os dois personagens em questão são Michael Schumacher e Marc Marquez.
Ambos carregam várias características em comum: o início meteórico nas categorias principais, com resultados de expressão obtidos de imediato, a busca incessante e quase obsessiva por vitórias e recordes, o quase constante massacre dos companheiros de equipe, o fato de terem irmãos como adversários… a lista de similaridades é impressionante.

Ainda se pode analisar o fato de que Marc Marquez também teve uma espécie de hiato em sua carreira, após fratura (outra semelhança), fato análogo à ausência de Schumacher entre os campeonatos de 2007 e 2009, quando voltou da aposentadoria. Entre 2020 e 2022, Marquez esteve envolto à sua própria recuperação da fratura sofrida em Jerez e também da perda de competitividade de seu equipamento, enquanto pode-se traçar um paralelo também com os primeiros anos de Ferrari que fizeram Schumacher andar claudicante em busca de performances que pudesse deixá-lo em condições de vitória.
O fator humano de ambos também é objeto de estudo: Schumacher enquanto esteve na Formula 1 amealhou, em igual proporção, admiração e ódio, tal qual o espanhol. Os dois ainda cruzaram seus caminhos com lendas do esporte, fazendo com que suas carreiras ficassem marcadas, para o bem ou para o mal com a tarefa de destronar a supremacia de cada uma dessas lendas. Marc batalhou com Rossi, o ídolo inconteste da MotoGP, e parecia nutrir genuína admiração pelo italiano, até o controverso ano de 2015, quando foi pivô da luta de Rossi com Lorenzo pelo título. De forma mais trágica, Schumacher viu o fim de Senna, a quem admirava mas com quem também havia tido alguns entreveros antes mesmo de quando ainda partia para a conquista de seu primeiro título.

Esse fator humano que gera amor e ódio no coração dos fãs é observado em detalhes e na postura e comportamento dos dois: Schumacher era extremamente autoconfiante, estava sempre de bom humor em entrevistas e não deixava nenhuma brecha sugerir que não tinha certeza que iria dar conta. Era também um líder nato, uma habilidade muito bem observada quando conduziu a Ferrari ao seu período mais vitorioso. Marc também assim o é: tem a postura demasiada e exacerbadamente otimista, sempre raro ouvi-lo criticar situações tanto da equipe ou dos rivais, deixando a mesma aura de superioridade que era vista em Schumacher, sendo por vezes também em igual número confundida com arrogância.
É de se imaginar ainda o árduo caminho traçado pelos irmãos de cada um: Ralf Schumacher esteve na categoria entre 1997 e 2007 e, quase sempre relegado à sombra do irmão vitorioso. Seus resultados, apesar de constantes, não eram nem de perto parâmetro frente ao talento e capacidade de Michael. Além disso, ele levou quatro anos para vencer e nunca esteve de fato em reais condições de vencer uma disputa de um campeonato. Pode-se dizer que houveram poucos embates reais entre os dois, quando seu equipamento o permitia derrotar o irmão em raros sábados ou domingos.

Alex Marquez tem também o mesmo problema doméstico: dois anos mais novo, viu e acompanhou de perto a ascensão do irmão ao mesmo tempo em que procurava construir o próprio caminho de sucesso. Diferente de Marc que demorou no máximo dois anos para vencer em cada uma das categorias, Alex sempre precisou de mais tempo, com anos de adaptação em cada uma das categorias de base para ser campeão, e no atual momento, também chegou à sua primeira vitória e na real contenda de um título após cinco anos. Há ainda, agora neste ano de 2025, o primeiro em que Alex está de fato numa disputa de título, o incômodo comentário de que exista uma espécie de pacto de não-agressão entre os dois. Os irmãos lideram o campeonato e estão em posição confortável devido à performance de seus equipamentos.

Michael Schumacher deixou um legado de esportista dominador, com doses proporcionais de genialidade e polêmica. Contestado por uns e amado por outros, ficou claro que ele não mediria esforços e consequências para garantir que seu nome ficasse escrito na história do esporte a motor, inclusive empreendendo sacrifícios no meio do processo. Marc Marquez, que agora veste vermelho e parece ter a mesma obstinação, busca neste 2025 reiniciar um caminho que o infortuno ano de 2020 o reservou. Inspiração e semelhança ele tem e o personagem em questão está marcado na mente de todos vestindo também o mesmo tom escarlate, e também numa máquina italiana.