A gente sempre espera, a cada vez que a F1 para em Montreal, que o imprevisível aconteça de fato. Não a toa, as coisas mais malucas da temporada – na humilde visão deste escriba – estão reservadas para este pedacinho de terra canadense que, nas palavras de Galvão Bueno, é uma “Mônaco com um pouco de grama”.
Se chove, a tendência é que tudo fique melhor ainda, de fato. Ficou nos treinos, com a lei dos impensáveis acontecendo e até colocando uma Haas (mesmo que momentaneamente) na segunda fila do grid. Saladas feitas, bora pra largada e… enfim, outro fim de semana com o vencedor conhecido e algumas brigas de meio de pelotão. E confesso: nem pareceu tanto Montreal.
Entre as bolas divididas todas, a passagem pela Ilha de Notre Dame serviu (com todos os pachecos viuvas de Senna comendo as gravatas) para ver Max Verstappen chegar ao já místico numeral de 41 tentos na categoria. Chegou fácil, sem ameaça alguma, mostrando ainda que é o velho monstrinho holandês que assombra com coelhos na cartola, pura velocidade e uma sagacidade que beira o ridículo de tão grande.
Sem ele na prova, talvez teriamos ainda mais momentos de vivacidade. Montreal, nisso, foi pródiga. Vimos dois campeões mundiais se acotovelando por um melhor lugar no pódio (leia-se Alonso e Hamilton), um carro-tanque arrepiando e um tailandês correndo com um time todo nas costas e voltando com pontos no bojo. Alguns pequenos – e notáveis – lances canadenses que, ao menos, nos tiraram da chateação.
E sim, é chateação mesmo! Vindo da aventura de Le Mans, a prova do domingo foi aquele clássico vesperal para cochilo. Não dormi, mas seria melhor ver o Pelé… ou melhor, ver a Indy. Noves fora, Max segue na trilha do tri.
Os 10
1) Max Verstappen (Red Bull-Honda)
2) Fernando Alonso (Aston Martin-Mercedes)
3) Lewis Hamilton (Mercedes)
4) Charles Leclerc (Ferrari)
5) Carlos Sainz Jr (Ferrari)
6) Sergio Perez (Red Bull-Honda)
7) Alex Albon (Williams-Mercedes)
8) Esteban Ocon (Alpine-Renault)
9) Lance Stroll (Aston Martin-Mercedes)
10) Valtteri Bottas (Alfa Romeo-Ferrari)

Pilotos:
1) Max Verstappen (195)
2) Sergio Pérez (126)
3) Fernando Alonso (117)
4) Lewis Hamilton (102)
5) Carlos Sainz Jr. (68)
6) George Russell (65)
7) Charles Leclerc (54)
8) Lance Stroll (37)
9) Esteban Ocon (29)
10) Pierre Gasly (15)
Construtores:
1) Red Bull-Honda (321)
2) Mercedes (167)
3) Aston Martin-Mercedes (154)
4) Ferrari (122)
5) Alpine-Renault (44)
6) McLaren-Mercedes (17)
7) Alfa Romeo-Ferrari (9)
8) Haas-Ferrari (8)
9) Williams-Mercedes (7)
10) Alpha Tauri-Honda (2)
Destaque: Alex Albon (Williams)
Qualquer um que ouse fazer proezas com a Williams nos dias atuais é merecedor de todos os temos possíveis dentro do que concerne “tirar leite de pedra”. Fora o talento, colocar o pior carro do grid nos pontos várias vezes e passar para o Q3 é digno de nota e prova, simplesmente, que o piloto dentro do carro tem competencia para andar voando em times bem mais estruturados do que os 20 anos de atraso de Grove.

E olha, ver Alex Albon renascendo dessa forma é de bater palmas a cada feito do tailandês. Desde que, no ano passado, levou um carro quase sem pneu aos pontos, o garoto mostra cada vez mais que pode até ter sido chamuscado pela marca do touro, mas jamais pode-se afirmar que ele perdeu a mão de andar rápido e com consistência assustadora dentro daquela cadeira elétrica. O sétimo lugar foi muito festejado, e não só pela Williams.
Tudo isso com detalhes dignos de 12 trabalhos de Hércules: lutar contra qualquer carro já é um sacrifício, e com uma Williams neste nível, é ainda mais desgastante. Mas Albon tem ainda intactas as qualidades de eficiencia e velocidade que sempre teve, ainda somadas a esta persistência febril que vem demonstrando, participando ativamente deste tão incômodo processo de reconstrução da casa do velho Frank.
Simplesmente, os louros do Canadá são dele. Andou demais, mais até do que o carro que tem. Bravo!
As equipes
Red Bull: A casa dos antônimos, pura e simplesmente. Enquanto Verstappen escreve a história diante de nossos narizes, Sergio Perez continua a sua pífia rotina de não chegar a o Q3 e suar sangue por migalhas nos pontos. Um cenário triste para o mexicano que chegou a ser chamado de “rei das ruas” e se vê cada vez mais morto pelo talento descomunal do holandês. Dr. Markko está a espreita…
Aston Martin: Não foi lá aquela corrida esfusiante do time verde, mas ao menos esteve na normalidade. Fernando Alonso, de bem com a vida e batendo roda com Hamilton, fechou o dia com o segundo lugar habitual, que já começa a incomodar pela estagnação. Enquanto isso, Lance Stroll foi insignificante no fim de semana, apesar das brigas. Os poucos pontos estão prejudicando a equipe do próprio pai de maneira notável.
Mercedes: A evolução é visível. Mesmo que não seja um carro que a coloque, novamente, brigando por vitórias, a casa de Toto Wolff achou a consistência perdida e enplacou bonito com Lewis Hamilton em terceiro, fechando porta de Alonso dentro e fora da pista (os boxes que o digam). George Russell, no entanto, provou a qualidade de “tanque Tiger” que o carro tem: bateu, voltou voando e só não pontuou porque os problemas apareceram, mas valeu muito.


Ferrari: É surpresa dizer que, em Montreal, a Ferrari acertou a mão? Laurent Mekies, o recém-chegado à Maranello (e que, logo, estará de saída pra Alpha Tauri), parece ser o efeito da balança que levou o time, da mediocridade na Espanha, a uma tática certeira em Montreal. Podia ter até carimbado um pódio, mas ver Leclerc e Sainz na posição que chegaram é um alento, mas nada além disso para uma apagada equipe.
Williams: Aqui, caso típico de que um piloto praticamente leva o time nas costas. A atuação de Albon no fim de semana foi de bater palmas de pé no fim do concerto, com duelos entre ele e carros mais fortes e uma pilotagem entre a rapidez e a consistência. O sétimo lugar foi uma festa só na tão combalida casa de Grove. Já Logan Sargeant…
Alpine: Um vesperal “ok para menos” para os franceses. Ao menos, Esteban Ocon arrancou uns quatro pontinhos mais para não dizer que o time saiu de mãos abanando do Canadá em uma prova apagada. Pierre Gasly terminou o dia com a asa traseira mole, tomando buzinada de Lando Norris e chegando fora dos pontos. Tá no saldo, embora fraco.
Alfa Romeo: Olha só quem apareceu! Valtteri Bottas, naquela paz longe dos dias de gloria e mergulhado no marasmo suiço-italiano, veio de longe e faturou um pontinho para a Alfa. Diante dessa quase-espera pela Audi, ver os carros de Peter Sauber aparecendo chega a ser espanto, sobretudo o finlandês e seu bigode a lá Dale Earnhardt. Já Guanyu Zhou esteve longe das primeiras posições, em uma prova bem discreta.


McLaren: Oh diazinho modorrento! A casa de Woking até andou bem nos treinos, mas passou incólume na provva, só não sendo totalmente apagada porque Oscar Piastri teve um ótimo fim de semana e protagonizou algumas disputas interessantes no bloco intermediário, merecendo (e não conquistando) um ponto ao menos. Quanto a Lando Norris, só mesmo vendo a asa bamba de Gasly e nada mais.
Alpha Tauri: É, tá feio e dolorido. De potencial força a fecha-grid, o time azul-e-branco teve um fim de semana apático e cheio de erros. Tsunoda apareceu fazendo tumulto e pirraça e De Vries, o embuste, protagonizando uma cena hilaria com Kevin Magnussen, levando os dois a passar reto. A lanterna da classificação geral de construtores parece ser um bom lugar.
Haas: Sabe aquela definição antiga de “leão de treino”? Digam essa para Guenther Steiner e seus comandados, pois é ali que ele tem ganhado seus caraminguás de glória na categoria por estes tempos. Nico Hulkenberg fez furor no sábado e passou o domingo sumido e apático, enquanto Magnussen ainda brigou por algo, mas acabou aparecendo mesmo fazendo companhia para De Vries na area de escapa, numa hilária escapada de pista.
Enfim, aqui encerramos nossa revisão da tarde canadense, com mais uma tarde tranquila de Max, entre competência e bons risos no cockpit. Ao menos, a Red Bull espera esta tranquilidade dominante em casa, na Áustria, quando a festa e as homenagens prometem ser a emoção do fim de semana. Mas, por favor, que sejam muito mais que isso.
Noves fora, lá vem julho, o mês mais louco da F1 e do esporte a motor. A gente se vê em Spielberg. Gratos!