F1 2023 (Resenha | Mônaco e Espanha): Sol, chuva, rua, pista… o passeio segue seu curso

Está bem, confesso. Fazer resenhas duplas não é uma coisa que eu goste muito. Cada etapa tem sua história específica, mesmo que o lado mais emocionante dela tenha sido apenas um conta simples de voltas, como foi o caso de Mônaco no momento da chuva. E nem isso, se considerarmos que vivemos uma hegemonia daquelas monótonas, brochantes, indigeríveis.

O vesperal catalão teve mais do mesmo que as ruas do principado viram há uma semana atrás: Max Verstappen é o senhor da situação, nem mesmo o imprevisível faz tirar a concentração do holandês na briga pela ponta. A volta absurda para a pole em Monte Carlo só terminou com a subversão da lógica em Barcelona, largando de médios e sobrando, como sempre.

Nada para o impulso desenvolvedor da Red Bull, nem mesmo o colega da própria casa: Sergio Perez não fez nem sombra em duas corridas pífias, provando que a chance de “rosbergada” do mexicano se limitou a um curto momento de ofensividade no comecinho do ano. Como você luta contra a estrela da companhia e que tem todas as cartas na mão? Você não luta, simples assim.

Nem chuva: na imprevisibilidade de Mônaco, Verstappen seguiu mandando e desmandando

E o que sobra para dar graça ou salvar 2023 da mesmice? A Ferrari é uma vergonha sem tamanho, sem competitividade, perdida em estratégias furadas e com uma dupla sofrendo de desmotivação. A Mercedes parece que está começando a colocar a casa em ordem com as mudanças no carro trazidas em Mônaco e evoluídas na Espanha, mas o tempo já foi perdido. Já a Aston Martin, apesar de forte, ainda falta tutano para brigar pela ponta, sobretudo na caneta dos estrategistas da casa verde.

No mais, Max é tão mais “super Max” do que nunca e caminha para ser dono de recorde e dono de taça antes mesmo do previsível. Alguma novidade mesmo só para o próximo ano, ou se alguém achar um “pulo do gato” guardado nas caixas de depósito e que ainda não o descobriu sob a poeira. 2023 anda tedioso, infelizmente, e de resenhas duplas em resenhas duplas parece ser bem mais fácil contar a história do ano.

Os 10 (Mônaco)

1) Max Verstappen (Red Bull-Honda)
2) Fernando Alonso (Aston Martin-Mercedes)
3) Esteban Ocon (Alpine-Renault)
4) Lewis Hamilton (Mercedes)
5) George Russell (Mercedes)
6) Charles Leclerc (Ferrari)
7) Pierre Gasly (Alpine-Renault)
8) Carlos Sainz Jr (Ferrari)
9) Lando Norris (McLaren-Mercedes)
10) Oscar Piastri (McLaren-Mercedes)

Os 10 (Espanha)

1) Max Verstappen (Red Bull-Honda)
2) Lewis Hamilton (Mercedes)
3) George Russell (Mercedes)
4) Sergio Perez (Red Bull-Honda)
5) Carlos Sainz Jr (Ferrari)
6) Lance Stroll (Aston Martin-Mercedes)
7) Fernando Alonso (Aston Martin-Mercedes)
8) Esteban Ocon (Alpine-Renault)
9) Guanyu Zhou (Alfa Romeo-Ferrari)
10) Pierre Gasly (Alpine-Renault)

O esperado sidepod “convencional” da Mercedes veio em Mônaco, mas o resultado prático (se é que há) só veio na Espanha

Pilotos:

1) Max Verstappen (170)
2) Sergio Pérez (117)
3) Fernando Alonso (99)
4) Lewis Hamilton (87)
5) George Russell (65)
6) Carlos Sainz Jr. (58)
7) Charles Leclerc (42)
8) Lance Stroll (35)
9) Esteban Ocon (25)
10) Pierre Gasly (15)

Construtores:

1) Red Bull-Honda (287)
2) Mercedes (152)
3) Aston Martin-Mercedes (134)
4) Ferrari (100)
5) Alpine-Renault (40)
6) McLaren-Mercedes (17)
7) Haas-Ferrari (8)
8) Alfa Romeo-Ferrari (8)
9) Alpha Tauri-Honda (2)
10) Williams-Mercedes (1)

Destaques: Esteban Ocon (Alpine | Mônaco) e Mercedes (Espanha)

Com esta eleição feita pela resenha, talvez seja meio que óbvio a gente colocar quem – surpreendente – subiu ao pódio e quebrou a lógica das últimas corridas. Mas há mérito nisto, e nas duas indicações da coluna, é visível algo muito em comum, mesmo que o pareçam por linhas tortas: a evolução dos bólidos.

No principado, o terceiro lugar de Esteban Ocon talvez não soe tão merecido, é fato. Foi muito discutido sobre quem realmente estava fazendo o “trabalho sujo” nos desenvolvimentos da Alpine. Mas, há de se conver que o francês teve sangue frio e talento para usar da habilidade, não cometer erros e aguentar a pressão de Carlos Sainz e da chuva para subir ao pódio pela segunda vez na categoria. Merecido e bem conquistado, diga-se.

Ocon no pódio: aquele “conto de Herbert” acontece na Alpine, mas o francês fez por merecer

Já na Espanha, os resultados da mudança quase completa nos carros da Mercedes, não vistos no aperto do principado, parecem ter dado alguma melhora aos carros pretos de Brackley. É claro que não se teve a sombra de Fernando Alonso e das patéticas Ferrari, mas é preciso técnica e talento para fazer o projeto andar mesmo que pareça-se tudo perdido. Lewis Hamilton e George Russell fizeram os deles e, depois de algumas corridas e mesmo com um entrevero nos treinos, voltaram a ladear um pódio.

Foram destaques de ocasião, é fato, mas ao menos alguma surpresa ou motivo para os entusiastas resenharem nas mesas de bar além da ampla supremacia do holandês da casa austríaca, imparável e sem adversários.

O encontro de companheiros no parque fechado espanhol, depois do triunfo. É esse trompaço que a Mercedes quer na pista entre Hamilton e Russell

As equipes

Red Bull: Quando está tudo bem, a gente resenha o que? Max Verstappen é imparável, tira coelhos da cartola e subverte a lógica. Duas vitórias mais na conta, com imenso domínio ante a concorrência. Um contraste esmagador diante de um enfraquecido Perez, cada vez mais subjugado, anêmico, desaparecido em meio aos escombros que sobraram dele próprio.

Mercedes: Apresentar as atualizações tão aguardadas, como os sidepods convencionais em substituição aos teimosos “zeropods” talvez não foi a melhor tacada em Mônaco, mas rendeu algo positivo. Na Espanha, colheram-se os frutos da consistência mesmo com um estranho encontro entre Hamilton e Russell nos treinos. Pódio de destaque e expectativa para ver até onde as mudanças farão efeito.

Aston Martin: Dois domingos de contrastes para Alonso. O asturiano fez bonito e poderia ter vencido no principado não fosse a falta de tutano dos pensadores estratégicos da equipe. Em casa, teve problemas com o assoalho e, pela primeira vez, terminou atrás de Lance Stroll. O canadense, no entanto, ainda é o peso morto do time, que visivelmente atravanca a evolução nos pontos entre os construtores.

Recordações de 2016? Hamilton e Russell assustam e se trombam nos treinos
Alonso e seus contrastes: segundo lugar em Mônaco que podia ser vitória e uma corrida difícil em casa, com problemas no assoalho

Ferrari: Patético, frustrante, revoltante, a gente poderia depreciar a vontade à Maranello nestas linhas, pois faltaria verbetes para tanto. Erros de estratégia, imposições estapafúrdias, falta de competitividade mesmo com atualizações, a liderança de Frédéric Vasseur, por hora, é uma frustrante continuação do trabalho de Matia Binotto, tendo Charles Leclerc e Carlos Sainz sendo irremediavelmente fritados pelos constantes “cafezinhos” de um time apático. Vergonhoso em ambas corridas.

Alpine: De algumas corridas para cá, os bastidores franceses estavam trabalhando em alguma coisa, e pelo visto está funcionando. Duas corridas seguidas nos pontos e engolindo uma caducante McLaren sem pudor. Mônaco foi o ponto alto, com o pódio de Ocon muito bem costurado diante das adversidades. Há quem diga que Gasly merecia mais na posição de “líder” da casa, mas nem sempre esta certeza é uma conta exata.

McLaren: A descrição da Ferrari talvez caberia aqui também, mas por outra forma. Há quem diga que é exagerado falar em “falta de foco”, mas é o que há da forma mais fragorosa. Zak Brown parece pensar o time de Woking mais como uma fórmula midiática – com seus revivals inúteis da história – do que uma competitividade prática. Resultado: com um livery 100% mais belo que o atual, o time veio do duplo ponto monegasco a um zero-ponto dolorido em Barcelona. Lando Norris sentiu o golpe depois de um bom treino na Espanha virar pó e Piastri deve pensar, dia e noite, naquela vaga que deixou na Alpine.

Haas: As bocas alheias já profetizam a vinda da Alfa Romeo para os corredores ítalo-americanos, o que seria uma boa para as finanças e ideias da equipe. No entanto, o que mais se vê é um time engajado em ser um puro “leão de treino”, com boas passagens de Magnussen e Hulkenberg, mas sem um desempenho de corrida consistente para angariar pontos ou alguma história a mais. Destaca-se o show de K-Mag em Mônaco, mesmo passando zerado na tábua.

McLaren com o livery “triplice coroa”: mídias esdruxulas e desempenhos fracos. Onde está o foco de Zak Brown?
Na Ferrari, um sidepod novo, pouco para um time perdido, desmotivado e sem comando

Alfa Romeo: Uma morta-viva no grid. Depois do anuncio da vinda da Audi, mais faz número do que algo de útil a cada corrida, passando como uma retardatária de luxo, o que coloca toda a evolução do ano passado numa fragorosa lata de lixo. Zhou ainda conseguiu trazer dois pontos em Barcelona, muito pelo talento natural dele próprio e pela falta de um ou outro elemento na frente. Bottas e seu bigode a lá Gordon Murray seguem figurando, nada mais.

Alpha Tauri: Definitivamente, é Yuki Tsunoda que leva o carro nas costas a cada corrida. O time é outro que, fragorosamente, figura para dar número nas corridas, com atuações cada vez mais distantes dos ponteiros e presença quase constante nos erros de destaque nas provas. Enquanto o japonês tenta algo, sujeito aos rotineiros erros da impulsividade, De Vries continua sua rotina de embuste, entregue

Williams: Continua sua rotina zerada, mas não é mentira que o time ainda anda perdido na sua rota para voltar a ser uma legenda de destaque. Por hora, Alex Albon é o que tenta os milagres com uma máquina mais simples que o resto do grid, pagando com algum compreensível erro. Já Sargeant segue aprendendo, por vezes das formas mais duras possíveis.


Enfim, duas corridas resumidas em uma resenha. Não é o que gosto, mas vamos por aqui. A próxima parada da F1 cruza o Atlântico, para o imprevisível circuito de Montreal, na Ilha de Notre Dame. Imprevisível? Será o suficiente para para o “super Max” ou será mais um passeio no parque… ou melhor, na ilha?

Veremos dia 18! Até lá!

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