E 2024 já começou na F1, para a alegria de zero pessoas…
Tá certo, talvez nosso pessimismo diante da temporada que vem ai seja tão grande quanto o grid deste ano, mas não há outro sentimento que se procura do que uma dolorida certeza de que o ano será uma pura sucessão de provas com certo grau enfadonho e, novamente, a demonstração de excelência dos taurinos e sua joia holandesa no cockpit.
Entre os lançamentos e seu show pirotécnico careta e os testes com certo grau de previsibilidade, talvez o que aconteceu antes de tudo isso fosse mais chamar atenção como então chamou: Lewis Hamilton trocando a casa prateada pela de Maranello, Andretti negada à entrar no grid, escândalo envolvendo o outrora descolado Christian Horner, declarações, ilações e outros “ões”, sendo que alguns ou não darão em nada ou só acontecerão no ano que vem.

E tudo isso acontecendo numa temporada que devera ter a marca da saudade de três décadas. Afinal, até pra nós que evitamos o pachequismo e a choradeira de viúva constante, não nos é facultativo deixar de lembrar do tempo de Ayrton “Enerto” Senna e uma época de emoções, domingos de manhã inesquecíveis e demonstrações de talento do filho da dona Neide. Já se vão três décadas e será impossível escapar destas lembranças neste ano.
Enfim, mesmo desta forma, este escriba e o diretor especialista em churrascos e leões Roberto Taborda prepararam uma panorâmica de como estão as equipes para esta temporada, de mudanças esdruxulas de nome a promessas de mais momentos de conquista intercalados com horas de vergonha alheia nas decisões equivocadas.
Afinal, como passar 2024 sem cair no marasmo? A gente vai tentar… Vamos aos apontamentos:
Ferrari (SF-24): A cabeça de Maranello no ano que vem (e toques de amarelo)
É notório que, neste ano, a turma rossa vai ter uma certa inspiração no sucesso dos carros do WEC, a julgar pelo amarelo presente. Mas depois de tanto amarelar, talvez a grande certeza da Ferrari é de que o ano é o mais incerto possível e a expectativa é mesmo em 2025, quando um lado da garagem voltará a ser britânico e nunca se viu mais perto da volta do sucesso.
Claro, o anuncio de Lewis Hamilton para integrar o time no próximo ano praticamente nos fez esperar mais do cavalo rampante ano que vem do que neste ano. A equipe vem em descrédito depois de uma temporada horrível e cheia de problemas mecânicos e de pneus. Uma vitória cerebral de Carlos Sainz em Cingapura no ano passado foi o melhor momento, mas as patacoadas dominaram as ações.
No fim, com toda a agitação de bastidores, sobrou para o espanhol, que terá que fazer um ano inesquecível para não ficar a pé em 2025. Já Leclerc ainda busca a psicóloga para voltar a ser um piloto fiável, pois o ano anterior deixou traumas e a Ferrari está cansada deles (ao menos, se acabar o cafezinho).
Aston Martin (AMR24): Por um ano inteiro mais consistente e competitivo
No começo de 2023, ela foi a vedete entre as equipes abaixo do “trio de ferro”, e tão apoiada na escola taurina esteve que conseguiu emplacar uma sequencia de pódios com seu nome mais forte: Fernando Alonso. Quem tem o asturiano, teve tudo, só não teve mesmo dinheiro para continuar firme na ponta, caindo de produção de forma vertiginosa da metade do ano em diante.
O time verde tem know-how e capacidade de fazer um trabalho digno para ir além, mas ainda se prende a maneirismos que a amarram no meio do pelotão. O novo carro ainda não demonstrou muita coisa de palpável nos testes e o próprio espanhol já coloca a temporada na perspectiva do marasmo: “de 20 pilotos, 19 já sabem que não serão campeões”, referindo-se a superioridade de Max Verstappen no box vizinho.
Resta ver se o time terá fôlego para manter uma decente consistência durante o ano. Já Lance Stroll é o filho do dono, um dos anacronismos de um time preso as determinações da família e que se amarra no pseudo-talento deste canadense. Lamentável.
Visa CashApp RB (VCARB-01): Esdruxulo até no nome
Toro Rosso? Era interessante. Alpha Tauri? Tinha personalidade. Quem sabe uma homenagem a Minardi? Mas a F1 de hoje não tem memória nem respeito. A solução para um rebranding? Vamos achar o nome mais esdruxulo, colar nosso patrocinador e coloca-lo no time, e todos vão gostar de pronto! (sqn). E assim nasceu esta terceira pele do time B taurino, com a enxurrada de críticas dos fãs, para a alegria dos ouvidos moucos do time.
A RB (sim, a chamarei assim) é a mais odiada do grid antes mesmo dele se formar na primeira etapa. E fora isso, parece mais ser uma forma mambembe de conseguir curtidas no Instagram com o que Yuki Tsunoda e Daniel Ricciardo farão fora da pista do que dentro dela. No mais, nenhuma mostra de força ou recuperação do pífio ano passado e a feição de um time de fundo de grid com mais dinheiro.
Previsivel? Talvez, por hora, os detratores deste novo nome, tão esdruxulo e patético quanto o que poderá ser em pista, se o time não trabalhar com seriedade para não tomar tempo de Haas e Williams. A ver.
McLaren (MCL38): Passou da hora de trabalhar para ser grande de novo
Ao contrario da Aston Martin, a casa de Woking começou a engrenar mesmo da metade do ano para frente, quando o projeto passado foi salvo da bancarrota com mudanças necessárias, combinadas a atuações consistentes e fortes de Lando Norris e da joia Oscar Piastri, que faturaram pódios e apareceram muito bem nas corridas finais de 2023.
Agora, o hype mesmo é pra trabalhar firme e forte o ano todo, sem mais os sustos ocasionais de corridas ruins durante o ano. A McLaren espantou de vez os anos terríveis que viveu e tenta se aninhar e dar o pulo para incomodar o trio de ferro com mais frequência. Mas pra isso precisa parar de ser a turma do show fora da pista e colocar a mentalidade a serviço dos bons resultados.
É fácil para uma equipe que ainda guarda salas de troféus cheias de glórias e uma garagem recheada de pérolas do passado. Mas viver de passado não traz novas vitórias no futuro, e Woking precisa pensar no futuro, mesmo que tão previsível pareça.
Williams (FW46): Mais um ano suando sangue azul
É dureza! Pensar que, há três décadas atrás, quando fatalmente viu um tricampeão morrer num dos seus então desejados cockpits, que a casa de Grove era o primeiro nome em equipe. Títulos, vitórias, grandes nomes como pilotos, excelência como time e a marca da tradição de um homem que respirava, comia, dormia e vivia automobilismo em todo momento do dia.
E agora, o que resta? Um time apoiado num grupo de investimento que ainda manteve o nome por algum respeito restante a história do fundador. A Williams teve tanto para engrenar uma recuperação, mas parece que 2024 será mais do mesmo na trajetória decadente da obra de Frank. O carro é simples, projeto feito como deu para se fazer e uma dupla onde um deles ainda não sabe o que é um quilômetro.
O grande apoio do time ainda é o talento de Alex Albon, que já é sondado por outras equipes para o futuro. No mais, viver de história e algum brilhareco é o que resta a Grove, que já foi grande e, hoje, duela para não ser a última ou a pior da grelha.
Red Bull (RB20): A temporada 2025 começou (e a de 2026 tá próxima)
Sim, você não leu errado não. Atual tricampeã do mundo com Max Verstappen, a Red Bull já pensa em 2025 e quem sabe até 2026. E não é somente pela questão técnica.
Seguindo a tônica de noticias bombásticas de pré temporada, a equipe austríaca está envolta em uma acusação grave, séria, que leva como expoente o nome de Christian Horner, o chefe da equipe em pista. O quanto isso vai afetar o desempenho é uma verdadeira incógnita. Porém, para minimizar isso, Adrian Newey tratou de afinar o já absurdamente bom RB19, trazendo a tona o RB20.
Curiosamente, com a dominância que teve em 2023, a casa taurina teve muito tempo para analisar o que os adversários estavam fazendo para diminuir o espaço que a equipe tinha e incorporou várias soluções dos concorrentes, sendo a mais discutida delas, uma versão de Newey do zeropod que a Mercedes tentou fazer funcionar por uma temporada e meia e largou de mão.
Teria Newey e seu caderninho encontrado o caminho para solucionar essa ideia dos alemães? Como diria o mestre Sergio Milani, “a ver”.
Mercedes (W15): A última dança de Hamilton será valsa ou rock?
A Mercedes foi uma das equipes que sofreu um baque antes mesmo do inicio da temporada. O anuncio da não continuidade de Hamilton e a rápida revelação da ida para a Ferrari em 2025 abalaram uma relação que já vinha bem desgastada.
Enquanto isso, George Russell caminha para ser o líder natural de uma equipe que tenta achar um caminho que ficou perdido por pelo menos uma temporada e meia. Um carro mais convencional, com os canhões de ar no capô sendo copiados por várias equipes (dentre elas, a Red Bull de Adrian Newey e seus caderninhos), nova suspensão e a redistribuição de alojamento de materiais e posicionamento de pilotagem tão pedida por Hamilton apareceram no render de lançamento do W15.
No entanto, tudo é imprevisível depois de dois anos patinando com problemas nos carros e o desagrado de Hamilton e Russell. O que será do ano da Mercedes ainda é tão nebuloso quanto, mas interessante como sendo despedida do filho ilustre, isso já podemos dizer que será.
Alpine (A524): A neutralidade suíça numa equipe francesa
Insossa, insípida e inodora. Tendo uma empresa da área hídrica como patrocinadora oficial não poderia aderir tanto a essa linha. Me espanta como a Alpine é um navio sem timoneiro e confesso que torci (alias, previ) a ida de Pierre Gasly para a Alpine como um ser capaz de liderar a equipe.
No entanto, me vejo frustrado por ver o francês deixando a carreira passar por causa da equipe. A trupe francesa segue com um déficit de motor bem considerável (cheguei a ouvir que eram 50 CV, mas mestre Milani me soprou que estão entre 15 a 20 CV), e tem um carro agora praticamente em carbono puro com adesivos colados.
A Alpine inaugura o carro envelopado na F1 e, ao lado de Gasly, está um Ocon cada vez mais sem rumo e que vai se tornando um Pierluigi Martini com vitória, agarrado a bandeira e sem possibilidades de crescimento.
Haas (VF-24): Giancarlo Minardi faria melhor
A Haas segue sua rotina de todo ano: começa com um carro bem convencional, nenhuma arte na parte técnica, dois pilotos experientes, competentes, e que agora, trazem economia e só! A equipe americana surfa num momento de estabilidade: Adquire tudo que pode da Ferrari, mantem-se como uma das donas de franquias no circo, está lucrando muito com isso, e vive de brilharecos aqui e ali.
Em 2024 aparece com um carro evolutivo de 2023 e que é uma continuação do de 2022, que nada mais é que o carro standard do novo regulamento. Com isso, deveremos ver Magnussen e Hulkenberg sendo eliminados nos Q1 com frequência, exceto quando houverem acidentes e quebras a frente, um procedimento quase padrão do time de Gene Haas
Pietro Fittipaldi, sabe-se lá como, ainda é um dos terceiros pilotos do time. Mas na boa, está se tornando mais um agarrado a uma hipotética chance de estar no grid e não olha as boas coisas ao redor com mais carinho. Outro ano de gravar cenas para o “Drive to Survive”, previsivelmente.
Sauber (C44): Sim, só Sauber
Ah, na transmissão será Kick, Stake, Sauber… pra mim é a SAUBER. Equipe que tem tanta historia na F1 que precisa ser respeitada. Pena que está em uma temporada de transição, ou como dizia o chefe André Bonomini “uma morta-viva no grid”.
No ano passado, Bottas e Zhou já tiveram bastante dificuldade, principalmente na segunda metade da temporada, onde a equipe simplesmente estancou: evolução praticamente zero, exceto aquelas já programadas, sem contar um carro que já não tinha uma competitividade alta, caindo pelas tabelas.
Para 2024, além dos novos apoiadores, novas cores, espera-se que a evolução da Ferrari traga benefícios para a Sauber, além (para mim) do aguardado anuncio de Carlos Sainz Jr indo para a equipe em 2025, ainda com a nomenclatura Sauber e aguardando a passagem oficial para a Audi.
E repito: SAUBER, repita esse nome com vigor que merece ser mais respeitado do que casa de aposta com nome de pedaço de carne.