A gente conhece essa vaidade cruel e nefasta que cerca o automobilismo. Elitismo, preconceitos velados, declarações carregadas de desdém e arrogância. Notável, nossos olhos acompanham uma modalidade esportiva onde, por muitas vezes, é a cifra do cheque que é o fiel da balança entre a vitória ou a falência.
Bendita ou maldita burguesia veloz. E como todo tipo de nobreza esportiva, o grito dos fãs e os lances da pista (raros, hoje em dia, mas existentes) são pano para esconder, ao fundo, decisões e declarações que, se não surpreendem pela ousadia negativa, revoltam pela polêmica e contrassenso que se inserem. Surpreender-se ou não é algo de escolha do espectador, e nós bem sabemos.
Neste tempo pós-pandemia e na vitrine cada vez mais proeminente das redes, os comportamentos destas figuram do bastidor endinheirado do show não passam despercebidas. E, bem pelo contrário do senso, fazem das palavras o uso indiscriminado de preconceitos e ilações que viram assunto, ganham curtidas e comentários, mesmo os mais negativos. Mas tudo bem, é só mais um dia.
Um dia, outro dia, e a maquiagem da corrida e do Instagram revelam ou escondem o comportamento primal dos homens de decisão da F1 (sim, homens porque, no topo, a misoginia ainda é lamentável regra) beira o absurdo. Talvez pela anestesia que temos, permeada pela nossa constante indignação, não deixa a gente se acomodar nas palavras e ações; E as ultimas são exemplos destes velhos gagás da pista.
Bernie Ecclestone, velha raposa do metier da F1, eterno provocador de polêmicas mesmo com o enaltecimento que recebe de alguns pelo poder de fazer da categoria um espetáculo rentável aos borbotões, habilidade que cultiva desde os tempos da Brabham. O que tem de negociador, tem de patrão rígido, conservador e sindicalista carrasco, vide 1982.
Frequenta os paddocks do mundo, esbanjando pompa e circunstância, sem deixar de lado as falácias e declarações que, quando atiçam a razão de fora das cercas, são abafadas pelo “foi tirado de contexto” ou “foi um mal-entendido”, barbeiragens gramaticais que qualquer um cidadão de bem dúbio diria hoje em dia.

A última de Bernie foi de, literalmente, enterrar o nome de Felipe Massa entre alguns dos mais imparciais comentaristas de automobilismo. Declarações sobre o “Cingapuragate” que colocaram o brasileiro em cima dos cascos, numa estapafúrdia tentativa de reverter o jogo a lá futebol brasileiro buscando o título de 2008 que lhe fora seu por 38 segundos.
Teve quem comprou a barca furada, gritando odes de que “ele está no seu direito”, mas felizmente, a maioria pensa justo no poder incendiário de Ecclestone, que já tratou de tirar o seu da reta dizendo, jocosamente, a frase que talvez se esperasse num caso desse: “Massa só quer dinheiro”. Dá pena de Felipe, outra vítima da língua ferina do inglês.
Mas não só Bernie que aponto o dedo. O outro está andando dentro dos paddocks sempre montado no atual status de equipe poderosa a qual a Red Bull se colocou. Helmut Marko, um ex-piloto austríaco vencedor de Le Mans e que digere (até hoje) o fato de ter a visão ceifada pelo esporte que militava, não perde tempo em seguir a arte de Bernie e tacar fogo no circo, ainda mais com os touros voando como voam ultimamente.
Mesmo na dominância em que está, o velho austríaco caolho adora provocar, instigar e usar dos impropérios linguísticos, quase num permanente estado de guerra com o lado vizinho. Em 2021, atucanar a Mercedes com declarações instigantes era um de seus passatempos, mesmo quando estava a frente, influenciando, de certa forma, comportamento de um outrora descolado e calmo Christian Horner.

A sanha não se perdeu nos dois últimos anos, e em 2023, até mesmo de xenofobia o cidadão acabou usando. Relacionar a suposta falta de foco de Sergio Perez com o fato do piloto ser latino-americano foi um disparo tão infeliz quanto idiota. A mesma justificativa do “mal interpretado” foi usada a exaustão, mas nada que colasse um estrago já feito, inclusive na já combalida temporada do mexicano.
Com tudo isso, pergunta-se insistentemente em rodas de conversa mais críticas do esporte a motor: até aonde a presença de Marko no time é saudável? Que é um rigoroso e cruel diretor, não é preciso provas para tanto, e se é competente no que faz, talvez ele responda contando-lhe do que o time dos touros é capaz. Certo é que a imagem descolada e desalinhada da Red Bull dos tempos de Vettel não é mais a mesma, e para pessoas de nível mais raso de F1, é como se a equipe fosse a vilã dos atuais tempos, a que vence o “heroico” Hamilton e ri com ares de maldade.
No mais, os exemplos dos dois são o típico caso dos racers que seguem a risca o comportamento esnobe e arrogante que é, de fato, a cartilha do motorsport em todas as suas frentes. A emoção na pista é o circo dos fãs que, nas palavras de Balestre, acreditam estupidamente que os pilotos são um “exemplo”. No entanto, por baixo da borracha queimada, estão cifras, polêmicas e palavras crueis para ser disparadas com a carga máxima de arrogancia.
Esses gagás e seus maneirismos, parte do espetáculo tétrico que, temerariamente, sabemos que existe.