O pit-stop mágico no GP do Brasil de 1994

O G&M faz uma análise cheia de cronometragens, imagens raras, politicagens, incêndios cinematográficos e muito mais da polêmica em torno dos pit-stops em Interlagos 1994. Objetivo: descobrir se a equipe Benetton já havia retirado o famoso filtro da bomba de combustível para ajudar Schumacher a desbancar os favoritos Senna e Williams em pleno GP do Brasil.

Schumacher surpreende na estreia

No dia 27 de março de 1994 a F1 iniciava sua nova temporada no autódromo de Interlagos. O GP do Brasil daquele ano marcou a estreia cercada de expectativas de Ayrton Senna na Williams, além de trazer um novo regulamento com a proibição de diversas ajudas eletrônicas para os pilotos e a volta do reabastecimento.

A corrida prometia muito para os brasileiros com Senna na pole, e o novo piloto da Williams não decepcionou ao manter a ponta na largada e iniciar a prova com um ritmo avassalador, abrindo 4s em duas voltas para a Ferrari de Jean Alesi. O alemão Michael Schumacher da Benetton se apresentava como o principal adversário de Ayrton desde os treinos, mas largou mal do segundo posto da grelha e caiu para terceiro.

Porém, após recuperar a segunda posição para Alesi, Schumacher mostrou um impressionante ritmo de corrida e começou a tirar a diferença para o líder. A batalha chegou a um momento decisivo no final do vigésimo primeiro giro, quando Senna foi para os boxes trazendo consigo Schumacher. A Globo era a geradora das imagens e conseguiu a “proeza” de perder o momento em que os dois líderes entraram no pit-lane, só mostrando o final da troca da Williams. Quando o brasileiro relargou a decepção veio: Schumacher estava em primeiro, mesmo após um pit de 7,8s para Ayrton.

A volta do reabastecimento era uma das grandes novidades da temporada.

Michael não só assumiu a ponta como já saiu do pit-lane com uma vantagem de aproximadamente 2s, uma grande virada na prova. O alemão não desperdiçou a oportunidade e passou a estender essa vantagem, elevando-a à casa dos 7,8s após 43 voltas. No giro seguinte, Senna vai para sua segunda troca, que demora 8,5s. Mais uma volta e é a vez de Schumacher parar de novo, e a Benetton novamente trabalhou melhor que a Williams, em 7,4s.

Após 46 voltas a vantagem era de 9,2s e sem mais pit-stops previstos restava à Senna arriscar tudo para reverter a situação. O brasileiro chegou a diminuir a diferença para 5s mas um erro na Junção na 56ª passagem jogou um balde de água fria na torcida em Interlagos: Senna estava fora e Schumacher rumava para uma surpreendente vitória.

O mundo da F1 estava impressionado com o desempenho do novo B194, com o também novo motor Ford Zetec-R, e claro, com o excelente trabalho de box da equipe de Flávio Briatore.

Senna e Schumacher travaram duelo eletrizante na abertura do campeonato.

Tragédias e polêmicas

A prova seguinte em Aida no Japão adicionou mais drama para Senna, com o brasileiro apenas assistindo Schumacher vencer de forma fácil enquanto ele era abalroado por Mika Hakkinen e Nicola Larini na primeira curva.

E então veio Ímola e uma tragédia gigantesca se abateu sobre a F1 com as mortes de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna. Schumacher completou a prova em primeiro, em um dia em que ninguém venceu.

A F1 se enlutava, mas o campeonato seguia e Michael dominava vencendo mais três provas nas quatro rodadas seguintes. O título parecia decidido quando a equipe Benetton e seus pilotos começaram a ter seus nomes envolvidos em uma série de polêmicas. Uma delas aconteceu em Hockenheim, quando o companheiro de Schumacher, o holandês Jos Verstappen, fazia uma parada para reabastecimento.

O trabalho da equipe parecia perfeito quando uma grande quantidade de combustível vazou e se espalhou pelo carro. O resultado foi um incêndio impressionante que deixou o piloto e alguns mecânicos com queimaduras leves.

O famoso incêndio no pit-stop de Verstappen.

As polêmicas em torno da Benetton só aumentaram durante as semanas seguintes, quando uma investigação sobre o incêndio na Alemanha concluiu que a equipe havia retirado um filtro da mangueira de reabastecimento. Esse filtro ajudava a impedir que alguma sujeira atrapalhasse o funcionamento da válvula de reabastecimento e causasse o vazamento do combustível. Porém, o filtro também tornava o procedimento mais lento. Alguns diziam que a retirada dessa peça aumentava o fluxo do combustível em 12%, outros falavam em ganhos de 1s por troca, talvez 2s.

Enfim, o olhar sobre a Benetton passou a ser de desconfiança total. E mais: imediatamente após essas revelações, as pessoas se lembraram da corrida em Interlagos, no início do ano, quando Senna perdeu a liderança para Schumacher nos boxes. A conclusão era óbvia: a Benetton havia retirado o filtro, e por isso conseguiu fazer as trocas mais rapidamente que a Williams.

Toda a situação virou um grande imbróglio, com a equipe de Flávio Briatore apresentando uma carta que a empresa Intertechnique, fabricante do equipamento, havia dado à equipe Larrousse, autorizando a retirada da polêmica peça. A FIA ficou num impasse e decidiu não punir o time de Enstone, concluindo que eles haviam cometido um “erro honesto”.

Mas dentro de toda essa confusão, um detalhe é realmente importante para nós aqui: entre suas justificativas, a Benetton alegou que retirou o filtro apenas após Mônaco, quando a equipe Larrousse também o fez, após conseguir a autorização. Então o quê significa tudo isso? A Benetton já havia retirado o filtro desde o início do ano, ganhando em Interlagos por conta de um reabastecimento mais rápido? Ou eles só removeram o filtro mais tarde, sem que essa questão tivesse interferido naquela corrida no Brasil?

Vamos ver. Voltemos então para aquele GP do Brasil 1994.

Análise dos pit-Stops em Interlagos 

Para facilitar nossa análise, vamos começar pelo final. Vamos ver o que se passou na segunda rodada de pit-stops entre Senna e Schumacher.

Ayrton entrou para sua segunda troca ao final da volta 44. Durante esse giro, Galvão Bueno nos informa que a diferença entre os dois ponteiros é de “7,8s”. Colocamos entre aspas esse número pois com certeza Galvão tem acesso ao valor com três casas decimais, mas informa apenas o primeiro dígito após a vírgula. Mesmo assim, essa informação é confiável e a medição é auferida na linha de cronometragem. 

Nós não vemos o piloto da Williams abrindo a volta 44, mas vemos Schumacher fazê-lo. Sendo assim, podemos usar o seguinte truque: cronometrando a volta a partir do instante em que Michael abre o giro 44 e parando o cronômetro no momento em que Senna estaciona o carro para sua troca ao final desse mesmo giro: o resultado que temos é de aproximadamente 1min, 36,45s.

Clique aqui para o link da corrida completa e treino de sábado 

O momento em que Schumacher abre a volta 44, o vídeo marca 1h 54min e 31s
O momento em que Schumacher abre a volta 44. 1h 54min 31s do vídeo.
Na sequência, Senna parando nos boxes, ao final da volta 44. No tempo de 1h 56min e 8 segundos do vídeo. Cronometrando manualmente chegamos a um intervalo de 1min 36,45s entre os dois momentos.

Para sabermos o tempo da volta de entrada de Ayrton, basta reduzirmos desse valor o tempo de 7,8s que foi o tempo que ele demorou para abrir a parcial após o líder. Portanto a volta de entrada do brasileiro ficou em torno de 1min 28,65s.

Vejamos agora o pit-stop. E para analisarmos isso, vamos estabelecer a seguinte premissa: as equipes já faziam a troca de pneus em menos de 5 segundos naqueles dias, portanto a troca dos compostos em si não interferia no tempo de parada, que geralmente estava em torno de 7 ou 8s. Assim, podemos estabelecer que o tempo de parada é igual à soma de três fatores:

a – o tempo que se passa do momento em que o piloto estaciona por completo o carro até a equipe conectar a mangueira de reabastecimento

b – o tempo que se passa a partir da conexão da mangueira até a retirada da mesma, que é o tempo do reabastecimento em si

c – o tempo da retirada da mangueira até o piloto reiniciar o movimento do carro.

Observemos então o segundo pit de Senna: Após Ayrton estacionar por completo o carro, os mecânicos levam em torno de 1,35s para conectar a mangueira. Depois se passam 5,07s de reabastecimento aproximadamente, e então a equipe retira o aparelho, e 1,20s mais tarde Senna relarga totalizando 7,67s de parada.

O momento em que a equipe Williams conecta o equipamento. Aproximadamente 1,35s após Senna estacionar.
Os mecânicos da Williams começam a remover o equipamento aproximadamente 5,07s após o início do reabastecimento.
O momento exato em que Senna relarga, como dá pra perceber na on-board pelo som do motor de seu carro. 1,25 segundos após o time retirar o equipamento.
O momento em que o cronômetro pára em 8,5s, com Senna já em movimento. Repare como o bico do carro do brasileiro já está mais próximo da fina faixa vertical cinza.
A mesma imagem só que com qualidade melhor, aqui é mais fácil de ver o momento exato em que o mecânico da Williams termina de conectar o aparelho.
Um ângulo diferente da relargada de Senna. Aqui o momento em que os mecânicos começam a retirar o aparelho.
Por esse ângulo é mais fácil perceber o momento em que Senna relarga por conta das marcas do pneu.

Vídeo com o ângulo diferente da segunda troca de Senna:

Mas espere um instante! A TV marca 8,5s, o quê aconteceu? Bem, aqui chegamos em um momento importante dessa análise. A F1 não chegou à 1994 com mudanças apenas de regulamento ou trocas de pilotos entre as equipes. Após vários anos de parceria, a Olivetti deixou de ser a empresa responsável pela cronometragem oficial das provas. Agora, uma nova companhia era contratada pela FOM para cronometrar os passos dos pilotos, uma velha conhecida dos fãs de F1: a TAG Heuer.

Exceto que…não era a TAG Heuer! Bem, é meio complicado de explicar mas, basicamente, a famosa empresa apenas colocava o nome na TV, na verdade eles contrataram um grupo menor da Inglaterra que atuava em categorias periféricas para fazer a cronometragem por eles. O resultado, pelo menos nessa primeira corrida, não foi muito preciso.

Se o caro leitor observar o vídeo do treino qualificatório de sábado, vai notar que logo no início da transmissão Galvão Bueno esclarece para os telespectadores que a FOM não estava mandando os dados das parciais de volta de cada piloto. Portanto, desde sexta os problemas com a cronometragem começavam.

Porém, durante o treino de sábado, as parciais começaram a aparecer de repente. Mas elas estavam corretas? A resposta é não. Como ficou escancarado por algumas situações: a pole provisória de Senna por exemplo, onde no meio da volta era dada a informação de que Ayrton estava 1 segundo e meio mais rápido para no final ficar apenas
0,161s à frente da volta de Schumacher.

Mais um gráfico incorreto da “TAG Heuer”: aqui Senna aparece com 1,567 de vantagem sobre a pole provisória de Schumacher…
…quando o brasileiro completa sua volta rápida, o gráfico mostra erroneamente o tempo de 1:14.9, um valor a menor…

 

…apenas para imediatamente corrigir o tempo para o valor correto. A nova pole provisória de Senna foi realmente em 1’16”129.

O mesmo é facilmente percebido na volta rápida de Damon Hill, que começa botando 3 décimos de segundo em Senna e termina mais de um segundo atrás, deixando Galvão a imaginar aonde que o inglês perdera tanto tempo.

O momento exato em que a transmissão vira para Damon Hill. É por volta desse instante que o gráfico começa a cronometrar a volta, de forma errônea. Como pode ser visto claramente, Hill já passou pela linha de cronometragem e está tangenciando o S do Senna.
Como o operador do gráfico disparou o cronômetro alguns instantes após o início da volta, o valor da parcial de Hill fica a menor…e ele aparece com um tempo melhor que o de Senna.
O gráfico se mantém incorreto até o final. Repare que Hill já completou a volta, em 1’16”8…
…apenas para ser corrigido imediatamente pelo tempo da cronometragem oficial.

Então toda a informação de cronometragem da corrida está errada? Com certeza não. Os tempos de volta, tanto na classificação quanto na corrida estão corretos, pois eram auferidos pela cronometragem oficial. As distâncias entre os pilotos durante a prova também, apesar de que devemos fazer a ressalva de que essas informações às vezes chegavam com certo atraso. Porém, o gráfico que mostrava a cronometragem das voltas na classificação e também dos pit-stops era operado de forma manual, por tanto, menos preciso.

Esse provavelmente foi um improviso feito pela FOM para fornecer as informações que eles não estavam conseguindo passar pela cronometragem oficial. Na primeira troca de Rubens Barrichello também nota-se alguma diferença, por exemplo. 

Portanto, ficaremos com “um pé atrás” quanto às cronometragens das trocas. Por hora, voltemos ao pit de Senna. Com o vídeo da transmissão da corrida apenas, é impossível cronometrar o tempo da volta de saída de Ayrton, já que no final desse giro Schumacher entra para sua segunda troca e as câmeras se voltam para o alemão.

Mas, nos dando ao luxo de usar o vídeo do programa F1 Decade, podemos cronometrar a volta seguinte à Out-lap, no caso, a volta 46 de Senna, até o ponto em que Ayrton termina o mergulho. Logo a seguir o programa da ESPN vai para intervalos comerciais, mas felizmente para nossa sorte a transmissão da Globo mostra o restante da volta.

Assim, é só cronometrar as duas partes e somar. Esse giro fica em torno de 1’19”4.

Segue o link para o vídeo do programa F1 Decade

No vídeo do programa F1 Decade, o momento em que Senna abre a volta 46 logo após Schumacher sair de sua troca.
Aproximadamente 1 minuto e  0,51 segundos depois, Senna completa o mergulho, chegando numa marca no asfalto que podemos usar para continuar a cronometragem…
…a partir da mesma imagem no vídeo da transmissão televisiva.
Senna completando a volta 46. Praticamente 18,89 s se passam daquela marcação até o fim da volta. Somando com a primeira parte temos a volta 46 em 1’19”40.

Pelo vídeo da transmissão da TV, podemos cronometrar novamente do momento em que Senna relarga após seu pit-stop até o momento em que completa a volta 46: o resultado é de aproximadamente 2min, 43,84s para Senna nas voltas 45 e 46 somadas. Subtraindo desse valor o tempo da volta 46 que conseguimos isolar temos:

+2min 43,84s – 1min 19,40s =  1min 24, 44s que é o tempo da volta de retorno do piloto da Williams.

Assim, temos a seguinte cronometragem para Senna das voltas 44 a 46:

– Volta 44 (In-Lap): 1’28”65 | Pit-Stop: 7,67s

– Volta 45 (Out-Lap): 1’24”44

– Volta 46: 1’19”4

Agora vejamos Schumacher nesse mesmo período: Na volta 44, enquanto Senna perdia tempo atrás de Comas, o alemão voava pela pista como o próprio Galvão notou. Michael virou 1’18”9, excelente marca. A Globo mostrou os momentos exatos em que o germânico abriu e completou essa volta, e também mostrou o final do giro seguinte, quando este entra nos boxes, nos possibilitando cronometrar a volta 44 e a volta 45.

Chegamos em 1’18”95 para a volta 44, e o giro 45 do piloto da Benetton fica em torno de 1’26”68.

Schumacher abrindo a volta 44.
Schumacher completando a volta 44, 1min 18,95s após abri-la
 
O momento em que o alemão estaciona seu B194 para a segunda troca, encerrando sua volta de entrada no giro 45.

Repare no impacto que os retardatários tem nesse processo: Senna, que percorre uma distância menor que Schumacher para entrar nos boxes (sua garagem é a primeira do pit-lane) fez uma volta de entrada quase dois segundos mais lenta, ou seja, um enorme prejuízo.

Vejamos então o pit de Schumacher, que vai nos ajudar a ver o quanto o filtro influenciava aqui: do momento em que o carro número 5 pára até a equipe conseguir fazer a conexão, se passa algo em torno de 1,1s. Os mecânicos da Benetton, portanto, são um pouco mais ágeis aqui. E o tempo de reabastecimento é… 5,23s! Virtualmente o mesmo tempo de reabastecimento da Williams. Após os mecânicos começarem a retirar a mangueira até o carro ser colocado no chão, se passam apenas 1,11s.

Olhando por um ângulo lateral podemos ver uma cena reveladora: com a corrida nas mãos e prestes a conseguir um resultado surpreendente, Schumacher está tenso e acelera o carro antes da equipe descer o B194 ao chão. O resultado disso é que quando a equipe abaixa o carro ele imediatamente entra em movimento, mas de forma extremamente lenta. Por pouco Michael não deixa o carro morrer aqui. Sendo assim, o tempo de troca acaba imediatamente após as quatro rodas do carro encostarem no chão.

Link para o vídeo com o segundo pit de Schumacher por ângulo lateral

Pouco mais de um segundo após o alemão estacionar, a equipe Benetton começa o reabastecimento.
O momento em que os mecânicos começam a remover o equipamento, 5,23s após o início do reabastecimento.
O carro do alemão entra em movimento imediatamente após a equipe descer o bólido ao chão.
O segundo pit de Schumacher por outro ângulo: o instante em que os mecânicos da Benetton estão terminando a troca de pneus…
…no segundo seguinte o carro ainda está erguido. Mas repare no “Goodyear” dos pneus: Schumacher já está acelerando, antes da hora, e isso vai lhe custar 1s na sua relargada.

Portanto, a troca de Michael durou algo em torno de 7,43s. Um empate técnico com o tempo da cronometragem em  7,4s. A transmissão mostra toda a relargada e boa parte da volta de saída do alemão, porém não conseguimos ver o momento em que ele conclui seu out-lap. Todavia, pouco depois, podemos ver Senna completando esse giro, e se soubermos a diferença entre ambos nessa parcial, podemos fazer a conta para descobrir a Out-Lap do tedesco.

Do momento em que a Benetton Ford relarga até o ponto em que Senna completa a volta, temos 1min 34,64s.

Voltamos ao momento em que Senna completa a volta 46. Agora para usar como referência para cronometrar a volta de saída de Schumacher. Ayrton está passando pela linha 9,2s após a Benetton.

Dessa vez Galvão não nos informa a diferença entre ambos, preferindo aguardar um pouco mais para verificar se a vantagem aumentava ou diminuía. Mas na transmissão da Eurosport, Allard Kalff nos diz surpreso que a diferença agora era de 9,2s. Portanto a volta de Schumacher na saída é igual a: 1’34”64 – 9,2s. Ou seja,  1’25”44. (Link para o vídeo da transmissão da Eurosport)

Assim, os tempos de Schumacher das voltas 44 a 46 são:

– Volta 44: 1’18”95

– Volta 45 (In Lap): 1’26”68 | Pit-Stop: 7,43

– Volta 46 (Out-Lap): 1’25”44


Portanto, o tempo total de Senna nesse intervalo é de 4min e 20,16s. Já para Schumacher se passam 4 min e 18,5s, diferença de 1,66s. O intervalo que separava os dois até a volta 43 era de 7,8s. Com mais esses 1,66s, temos 9,46s, empate técnico com o tempo de 9,2s relatado na transmissão.

Válido lembrar que todas as cronometragens que fiz aqui são manuais, portanto sempre haverá uma margem de erro. E nesse caso específico, começamos usando dados “abreviados”, o “7,8” no início do processo e o “9,2s” ao final. Esses valores não estão completos e acabam gerando alguma diferença.

Então Senna não perdeu tempo com o reabastecimento nessa segunda troca, basicamente a diferença veio nas voltas de entrada mais a diferença entre a volta 44 de Schumacher e a volta 46 do piloto da Williams. O brasileiro perdeu ainda 2 décimos no pit (por conta de uma maior agilidade dos mecânicos da Benetton na hora de conectar o equipamento) mas conseguiu recuperar parte da diferença no out-lap.

Vale notar que na volta de saída é Senna quem faz um giro mais rápido do que o alemão mesmo percorrendo uma distância maior (Senna relargou mais atrás). Schumacher claramente perdeu tempo com a relargada ruim e provavelmente esbarrou em Comas no final desse giro.

Podemos ver aqui também que o erro de cronometragem afetou bastante a interpretação de tudo que aconteceu nessas quatro voltas. Logo de cara Galvão fica com a certeza de que o pit de Schumacher foi bem mais rápido, e começou a deduzir que Senna tinha ganho tempo na desaceleração.

Então o segundo pit-stop está esclarecido. Vejamos agora a situação da primeira rodada de troca de pneus e reabastecimento.

Primeira rodada de pits

A cronometragem mostrou que os dois líderes completaram a vigésima volta separados por 0,662s. Começaremos esse processo por Schumacher, já que conseguimos ver a troca completa dele no Review oficial da FIA e em outros vídeos japoneses. Podemos começar cronometrando o tempo total de Schumacher entre abrir a volta 21 até completar o giro 22. E o que temos é a marca aproximada de 3min 0,15s.

Schumacher abrindo a volta 21, no vácuo de Senna. Ou, para ser mais preciso, 0,662s atrás do brasileiro…
…como nos mostra a cronometragem oficial após alguns instantes, quando eles já vão pela reta oposta. À frente dos dois, a Larrousse de Comas. Mais atrás, Martin Brundle de McLaren.
Schumacher completando a volta 22, 3 minutos após abrir a volta 21.

Agora podemos analisar o pit-stop do germânico através do Review da FIA. Do momento em que o alemão estaciona o carro até os mecânicos conectarem o aparelho, se passam apenas 8 décimos de segundo. A equipe Benetton trabalhou de forma muito ágil aqui. O reabastecimento dura mais ou menos 5,18s, parecido com a segunda troca, e do momento em que o aparelho é retirado até Schumacher relargar, se passam mais 1,31s.

Portanto, um pit-stop de 7,29s. Link para o review da FIA.

Diretamente do review da FIA, o primeiro pit de Schumacher. Aqui o momento exato em que o alemão estaciona seu B194.
Em menos de 1s os mecânicos da Benetton já conectaram o equipamento.
Após 5s, o momento em que os mecânicos da Benetton começam a retirar o equipamento.
Pouco mais de um segundo após o fim do reabastecimento, Schumacher relarga.
3s após a relargada, Schumacher alcança essas duas marcas de pneus no pit-lane…
A mesma cena, só que agora no vídeo da transmissão televisiva.
O que nos leva de volta ao momento em que o alemão completa a volta 22, para fecharmos a volta de saída de Michael.

Podemos usar essa filmagem do review para conectar a saída de Michael com a transmissão televisiva e assim descobrirmos quanto tempo durou seu out-lap. Usando as marcas de pneu no box como referência, podemos cronometrar o tempo que se passa entre a relargada até ele alcançar essa marca (aproximadamente 3,62s), e somar com o tempo dele passando dessa mesma posição até completar a volta no vídeo da transmissão (1min 19,97s). Assim sendo, a volta de saída de Schumacher fica em 1’23”23.

Por consequência, podemos subtrair esse tempo daquele total de 3min 0,15s para descobrirmos a volta de entrada: +3min 0,15s  – 7,29s  – 1,23”23 = 1’29”63.

Portanto, as marcas de Schumacher entre as voltas 21 e 22 são:

– Volta 21 (In-Lap): 1’29”63 | Pit-Stop: 7,29

– Volta 22 (Out-Lap): 1’23”23


Podemos observar aqui que a volta de entrada do alemão foi bem mais lenta que na segunda parada. Isso aconteceu obviamente por conta do tráfego. Michael estava preso atrás de Senna à essa altura e os dois tiveram de driblar alguns retardatários, como Christian Fittipaldi e claro, o inevitável Comas.

Agora, vejamos como essa sequência se passou para Senna. No caso de Ayrton, a Globo mostrou o final de seu pit, o que nos permite de imediato cronometrar sua volta de entrada somada ao tempo de troca, e separar a volta de saída.

Agora vamos pela perspectiva de Senna. Aqui o momento em que o brasileiro abre a volta 21.
A relargada de Ayrton após sua troca: quase 1min e 38s após abrir o giro 21.
Ayrton completando a volta 22, seguido ainda de perto pela outra Benetton, de Jos Verstappen, quase 1min e 26s após relargar.

Do momento em que ele abre a volta 21, até relargar do pit-stop, se passam 1min 37,55s. A volta de saída do paulista fica em torno de 1’25”79′. Importante observar aqui que após a relargada de Senna, apenas 3,29s se passam até o momento em que Schumacher chega na marca de pneus que usamos como referência anteriormente.

Quando fizemos a cronometragem pela perspectiva do alemão, o tempo foi de 3,62. Isso significa que se passaram 0,3s a mais do momento em que Schumacher relargou até aquele instante, ou seja: Schumacher relargou 0,3s antes de Ayrton.

Usamos novamente esse momento como ponto de referência, agora para apontar que Schumacher relargou 3 décimos antes que Senna.

E agora vem a grande pergunta: quanto durou o pit-stop de Senna? Bem, a TV diz que durou 7,8s. Mas nós sabemos que a cronometragem falhou bastante nesse dia. Será que dessa vez eles acertaram? Se esse dado estiver correto, significaria que a volta de entrada do piloto da Williams durou 1min, 29,75s, ou seja, um décimo mais lenta que a volta de Schumacher, que estaciona seu carro depois de Ayrton, na garagem da Benetton. Soa impossível. Será que aqui de alguma forma o filtro fez a diferença? O que aconteceu? Vamos ver mais de perto esse pit-stop.

Nós infelizmente não temos a filmagem completa da primeira troca de Ayrton. Mas temos o início e o final do trabalho de box da Williams. Portanto, já podemos observar algumas coisas: do momento em que Senna estaciona o seu FW16 em definitivo até os mecânicos conectarem a mangueira de reabastecimento, 1,3s se passam.

Portanto, comparado com a primeira troca da Benetton, a Williams perde meio segundo nesse processo. Na transmissão televisiva temos o momento exato em que a equipe retira a mangueira, e desse momento até Senna relargar se passam mais 1,26s aproximadamente.

O momento em que Senna estaciona para sua primeira troca.
Pouco mais de um segundo após Ayrton estacionar, os mecânicos da Williams conectam o equipamento.
De volta para o vídeo da corrida, aqui temos o momento em que os mecânicos começam a retirar o equipamento de reabastecimento.
E então voltamos para a relargada de Senna, aproximadamente 1,3 após a equipe começar a remover o equipamento.

Portanto, ao redor do reabastecimento, nós já sabemos que a troca durou uns 2,56s, Nós sabemos que a quantidade de combustível a ser colocada nas duas paradas era a mesma para ambos os pilotos, portanto a Williams deveria colocar algo em torno de 5s de gasolina, o que praticamente fecharia com a cronometragem tão suspeita da TV. Seria esse mesmo o valor? Será que a Williams não perdeu algum tempo com a troca de pneus ou com o próprio reabastecimento?

Bom, qualquer trapalhada que houvesse nesse sentido, certamente seria reclamada por Galvão e Reginaldo imediatamente. A única alternativa seria a Williams simplesmente ter posto mais combustível, algo totalmente sem sentido. O comentário geral nas transmissões foi de que a troca foi boa. Nas palavras de John Watson, que comentava a corrida junto de Allard Kalff para a Eurosport: “pareceu ser um ótimo pit-stop para Ayrton Senna pelo que vimos”.

Vamos a um último tira-teima: após o pit-stop, temos todo aquele momento com Galvão se confundindo, achando que Senna tinha conseguido reassumir a liderança. Duas voltas depois, o narrador esclarece tudo e mais uma volta à frente, Reginaldo Leme começa a falar algo importante:

“Esse reabastecimento realmente é uma nova variável muito interessante para o campeonato e interessante para uma análise, porque, na verdade, muita coisa a gente vai saber sempre só ao final das corridas. Por exemplo: o Schumacher fez uma troca bem mais rápida que a do Senna agora. É verdade que a Benetton trabalhou mais rápido ano passado que a Williams, até o Schumacher tava confiando nisso…

Mas trabalhou muito mais rápido, porque a Williams fez uma troca excelente, de 7 segundos, de 7 ponto trinta segundos… Então, o quê que pode ter acontecido, pode ser que o Schumacher simplesmente tenha colocado menos gasolina, usado o reabastecimento só no tempo exato de efetuar a troca de pneus, nesse caso ele estaria com menos gasolina, pode precisar de uma troca além daquela troca de Senna.”

Então esse é o raciocínio que passa a nortear a transmissão até o momento em que Ayrton pára pela segunda vez. De tudo que Reginaldo disse aí, nós já eliminamos quase todas as hipóteses: sabemos que a troca de Schumacher não foi absurdamente mais rápida. Também sabemos que o alemão colocou a mesma quantidade de combustível e que ele não precisou de uma terceira troca. Mas um ponto nesse raciocínio chama a atenção: no momento do reabastecimento, Galvão viu o cronômetro marcar 7,8s para a troca de Senna, chegando a comemorar esse resultado.

E mesmo assim, Reginaldo, quando menciona o tempo da troca de Ayrton, nos diz que a parada durou algo em torno de 7 ou 7,3s, para ser mais preciso. Um valor diferente, portanto do mostrado no gráfico. E mais, em reportagem que ele gravou para Globo exibir na semana seguinte, Reginaldo diz que o pit durou 7 segundos e meio. Outro valor diferente. Galvão e Reginaldo sabiam dos problemas de cronometragem desde sexta-feira. E mesmo sem esses problemas, quem conhece o trabalho dos dois sabe que o comentarista costuma cronometrar algumas coisas durante a prova, especialmente pit-stops. Acredito que aqui esteja mais uma prova: Reginaldo cronometrou o pit de Ayrton!

Ele chegou num valor um pouco menor por ter feito isso ao vivo, na hora, sem possibilidade de repetir a medição. É muito comum numa cronometragem manual dessas haver uma diferença, especialmente porque é difícil de acertar o momento exato em que o carro estaciona. Para a troca de Ayrton ter durado 7,3, sabemos que a Williams teria que ter colocado meio segundo a menos de gasolina, algo que não faria sentido.

Portanto, já sabemos que o Pit-Stop foi parecido, que os reabastecimentos foram iguais, e que o filtro, se foi retirado pela Benetton, não fez diferença. Mas a pergunta que fica é: como Senna perdeu a liderança por uma margem tão grande se sua troca durou apenas 6 décimos a mais que a de Schumacher? A resposta está no momento em que os dois entraram juntos no pit-lane.

Importante lembrar aqui que nessa corrida a FIA ainda não havia estabelecido o limite de velocidade nos boxes. Portanto, os pilotos podiam fazer a entrada e toda a desaceleração da forma mais rápida que conseguissem. E Senna tinha uma entrada crítica, logo após a rampa. Vejamos se conseguimos observar uma perda de tempo nesse trecho.

Analisando as imagens da onboard de Schumacher, podemos observar que no momento em que o alemão negocia a chicane da entrada para os boxes ele passa aproximadamente 0,57s após Senna, uma diferença menor em um décimo que a vantagem na abertura da volta, 0,662s.

Senna negociando a chicane do pit-lane.
Schumacher fazendo a mesma chicane 0,57s após o brasileiro.

Portanto da abertura da volta até esse ponto da chicane, Schumacher conseguiu se aproximar um pouco mais. Porém, durante a trajetória dos dois entre a chicane até a subida da rampa, essa diferença aumenta, como dá para perceber pelo tamanho do carro de Ayrton em relação ao espelho do B194.

O momento em que Senna começa a subir a rampa. Repare como o carro do brasileiro agora está proporcional à metade do espelho do carro da Benetton, menor que no momento da chicane.

É fundamental estabelecer a diferença entre ambos aqui. A segunda entrada de Senna pelos boxes foi filmada de um ângulo totalmente diferente, e um dos poucos pontos para compararmos as duas entradas é o final do muro à esquerda dos pilotos. Mas para usarmos essa referência, precisamos saber a diferença entre ambos passando por esse ponto, porque pela Onboard de Schumacher é muito difícil precisar o momento em que Senna passa do final do muro. 

Assim, podemos usar uma marca do muro do outro lado, à direita dos pilotos, como referência: Schumacher passa por essa marca aproximadamente 0,75s após Senna. Lembrando que aqui o leitor pode usar outro ponto de referência se preferir, como o momento em que cada um deles começa a subir a rampa, por exemplo.

O momento em que Senna está passando ao lado do nosso ponto de referência à direita dos pilotos.

 

E agora Schumacher chegando no ponto de referência.

Agora podemos fazer o seguinte teste: vamos cronometrar a partir do ponto em que Schumacher passa pelo final do muro ao lado esquerdo até o ponto da onboard em que Senna desaparece da imagem:

Schumacher chegando ao final do muro. Repare que as grades à esquerda estão quase acabando.
 
O momento exato em que as grades do muro desaparecem no lado esquerdo da on-board. Aqui é o ponto para começarmos a cronometrar.
O frame em que Senna some do alcance da câmera onboard da Benetton.

Do momento em que Schumacher passa pelo muro até Senna sumir da imagem, tempos aproximadamente 0,87s. Nós sabemos que Senna estava com uma vantagem de 0,75s, portanto, Ayrton levou o seguinte tempo entre passar do muro e sumir da imagem da onboard: 0,87 + 0,75 = 1,62s.

Agora que sabemos essa cronometragem, vamos para a seguinte pergunta: no momento em que Senna desaparece da On-board, aonde exatamente ele estava? Por esse ângulo não temos como precisar, mas podemos ver que Schumacher ainda não terminou de subir a rampa. E mais: observando a onboard com atenção, podemos ver que nos últimos frames com Senna aparecendo, Schumacher precisar esterçar o seu carro levemente para a direita para evitar um toque com o brasileiro. No momento exato em que Senna some do vídeo, Schumacher começa a virar de volta para a esquerda.

Vamos colocar aqui uma sequência de frames daquele momento:

Primeiro frame, com Senna começando a reduzir já no final da rampa. Repare que o braço da suspensão dianteira direita de Schumacher está longe da faixa amarela do pit-lane.
No segundo frame, Senna some temporariamente, encoberto pelo espelho da Benetton. Schumacher ainda não esterçou para a direita.

 

Terceira imagem: Senna já reduziu bastante e começa a virar para a esquerda. Agora repare como a barra de suspensão de Michael está bem mais próxima da faixa amarela. O alemão já está desviando de Ayrton.

 

Quarto frame: um dos últimos momentos em que Senna ainda aparece na On-Board, apenas o aerofólio traseiro da Williams, pra ser mais exato. Schumacher está bem à direita agora, o braço da suspensão está praticamente “encostado” na linha amarela, esse é o mais próximo que Michael fica do muro à direita.

 

Último recorte: Senna some da imagem, e Schumacher já começa a corrigir o carro de volta para a esquerda.

Observando a barra de suspensão do pneu de Schumacher fica nítido que à medida em que ele vai se aproximando do final da rampa o carro dele vai mais para a direita, e no momento em que Senna desaparece da imagem o alemão vira levemente para a esquerda novamente.

O que nos leva ao seguinte momento do Review oficial da FIA:

O momento em que Schumacher começa a virar para a esquerda no review oficial da FIA.

Portanto sabemos que após passar pelo final do muro do pit-lane, Senna levou 1,62s para chegar nessa posição em sua primeira entrada. Nota-se que o brasileiro ainda não está em cima da faixa amarela que divide o pit-lane das garagens.

Agora, para verificarmos quanto tempo Senna perdeu, vamos olhar a segunda redução dele, disparando o cronômetro a partir do ponto em que o muro acaba e parando a imagem o mais próximo possível de 1,62 s.

O momento em que Senna está passando no trecho em que o muro acaba.
Nesse frame conseguimos ver bem o final do muro à direita da imagem.

Parando o cronômetro 1,6 depois…temos o seguinte frame:

Senna 1,6s após o final do muro na sua segunda entrada. O piloto da Williams foi bem mais rápido aqui, repare como o carro já está passando da faixa amarela.

Aí está parte da diferença. Após 1,6s na nova tentativa, Senna já está com os dois pneus direitos em cima da faixa amarela. E mais: podemos seguir a cronometragem a partir do momento em que paramos no review, até o ponto em que Senna some da imagem.

Senna prestes a desaparecer da imagem no Review, pneu traseiro direito do FW16 ainda aparece nesse frame.

Entre esses dois pontos se passam 0,5s aproximadamente. E note que Ayrton ainda não está com o pneu traseiro direito completamente em cima da faixa amarela. Senna perde só nesse processo, mais de 0,5s, provavelmente uns 0,7s.

Não temos como ver o que acontece no meio desse processo pois não existem imagens disponíveis, mas temos o momento em que Ayrton estaciona o carro no colchete. Vejamos:

Em alguns vídeos japoneses sobre o GP encontramos essa imagem. Repare que ela começa com Senna praticamente chegando na linha branca do meio do colchete onde deve estacionar.
Aproximadamente 1,53s depois, Ayrton estaciona por completo o carro para sua primeira troca.

Cronometrando a partir do momento em que a imagem corta para os boxes da Williams até o ponto em que Ayrton estaciona o carro por completo temos algo em torno de 1,53s. Agora podemos tentar fazer a mesma cronometragem na segunda entrada de Senna pelos boxes e ver se ele foi mais rápido.

Senna estacionando o carro para o segundo pit-stop.
O carro estaciona por completo após no máximo 1,30s.
 

De novo Ayrton é mais rápido na segunda troca. Do momento em que ele entra no colchete até estacionar se passam aproximadamente 1,30s. Dois décimos a menos portanto do que na primeira tentativa. Ou seja: só no trecho até a faixa amarela do pit-lane e na parte do colchete, Senna já perdeu praticamente 1 segundo em relação à sua segunda entrada. 

Então vamos ver como tudo isso se encaixou. Observando através do vídeo do F1 Decade temos a entrada completa de Schumacher para a primeira troca na onboard do alemão.

Do ponto em que o muro à esquerda acaba até Schumacher estacionar por completo seu carro se passam mais ou menos 6,30s.

 

Mas para fazermos a comparação com Senna precisamos levar em conta que Michael passou pelo final do muro 0,75s após o brasileiro. Sendo assim, nosso intervalo de tempo para Schumacher fica em torno de 7,05s.

Vejamos o mesmo trecho para o piloto da Williams. Para isso, vamos usar como base o tempo da segunda entrada, que temos completa.

 

Do final do muro até estacionar por completo seu carro, Senna leva algo em torno de 4,85s. Mas nós já sabemos que ele foi no mínimo 1s mais lento na primeira tentativa, portanto temos aí 5,85s. O resto aqui é dedução: se nesse trecho que temos disponível para comparação Senna já perdeu 1s, é natural que tenha perdido mais tempo no meio do processo, já que uma desaceleração tão diferente faz você perder tempo ao longo de todo o processo. Totalmente possível que Ayrton tenha levado uns 6,85s para desacelerar.

Então o que isso significa? Que no momento em que Senna estava subindo a rampa ele estava com 0,75s de vantagem para Schumacher. Daquele ponto em diante o brasileiro levou 6,85s até estacionar, enquanto Schumacher levou 7,05s para estacionar seu carro mais à frente, na garagem da Benetton. Ou seja, Schumacher começou o processo com 0,75s de desvantagem, mas acabou ele com apenas 3 décimos de atraso. E aí como a Benetton trabalhou seis décimos mais rápido, temos Schumacher relargando primeiro por aproximadamente 3 décimos.

Para conseguir alguma informação a mais, conversamos com Paul West, mecânico que trabalhou durante muitos anos na equipe Williams e que estava lá em Interlagos com o time. Perguntamos a ele se lembrava de algum erro por parte da equipe que pudesse ter atrasado o pit-stop de Senna: “Acho que foi apenas o fato de que era nosso primeiro pit-stop com reabastecimento e nós não tínhamos praticado tanto quanto a Benetton. Não havia limite de velocidade e nós estávamos na primeira garagem, então desacelerar o carro e estacionar nas marcas ás vezes era um problema.”

Questionamos então o antigo funcionário da Williams se Senna poderia ter se perdido na desaceleração: “É possível, a entrada do pit-lane é após uma rampa e então vem uma parte plana quando as garagens começam e alguns pilotos tiveram problemas lá, se você procurar pela situação com Boutsen em 1990 verá que ele acertou um de nossos mecânicos porque saiu de forma equivocada da subida da rampa. Outro fator poderia ser que depois de todos os anos na McLaren, entrar numa garagem da Williams poderia parecer estranho para Ayrton, eu duvido muito, mas é uma pequena possibilidade. Hainz Harald Frentzen fez isso em Jerez 1997, quando ele acabou indo para a garagem da Sauber, portanto os pilotos ás vezes entram nesse “modo default”.

Então, aí está nossa conclusão. Com tudo que observamos, temos as seguintes marcas para Senna nas voltas 21 e 22:

– Volta 21 (In-Lap): 1’29”750 | Pit-Stop: 7,8

– Volta 22 (Out-Lap): 1’25”69

Portanto, o tempo de Schumacher entre as voltas 21 e 22 foi de 3 minutos 0,15s. A mesma passagem para Senna durou 3 minutos e 3,24s. Ou seja, Schumacher foi 3,177s mais rápido, que é a diferença que se manifestou na prova: Ayrton abriu a volta 21 com 0,662s de vantagem e completou a volta 22 com 2,515s de desvantagem, ou seja, uma perda de 3,1s aproximadamente.

Trazendo aqui de novo o resultado de Schumacher:

– Volta 21 (In-Lap): 1’29”63 | Pit-Stop: 7,29

– Volta 22 (Out-Lap): 1’23”23

Observando esses dados temos o seguinte: em situação normal, Senna teria sido mais rápido na sua volta de entrada que Schumacher, por ter que percorrer uma distância menor. Como houve esse problema na desaceleração, a volta do brasileiro acaba sendo um pouco mais lenta. É aí que está a perda de tempo. Na out-lap, Senna naturalmente seria mais lento, por percorrer uma distância maior.

Observando a relargada dos dois, podemos ver que Senna começa com 2,6s de desvantagem, mas no momento em que os dois voltam para a pista, a diferença já caiu para 2s pois Ayrton consegue alcançar uma velocidade final maior por relargar mais atrás. Ao final do giro, porém, a vantagem aumentou para os 2,515s que aparece na transmissão, Senna provavelmente sendo um pouco atrapalhado pela outra Benetton, de Jos Verstappen, que vinha logo atrás do brasileiro com uma volta de atraso.

Conclusões e especulações

Não poderia chegar ao final desse texto sem assumir minha completa falta de experiência e gabarito para apontar a forma como Senna perdeu esse tempo na desaceleração: nunca fui piloto, muito menos de F1. A única certeza que fica é que Ayrton perdeu o tempo ali na freada para estacionar o carro. Posso apenas fazer suposições sobre como isso ocorreu: talvez a presença de Schumacher logo atrás tenha impedido Senna de fazer uma desaceleração ideal. Talvez o brasileiro planejava tirar um pouco o pé antes do final da rampa, mas não pôde fazê-lo porque se o fizesse, corria o risco de ser abalroado por Schumacher. Talvez tenha sido um simples erro do piloto da Williams.

Diante de tudo, se faz necessária uma última pergunta: porque ninguém comentou sobre esse incidente? Bom, talvez a melhor resposta seja porque era interessante para quem soubesse dele o manter em segredo. Explico minha teoria:

No programa F1 Decade, da ESPN, mencionado aqui nesse artigo, vemos Bob Varsha e o lendário David Hobbs dividindo os comentários com Steve Matchett, ex-mecânico da Benetton, 10 anos após todos os acontecimentos em 1994. Durante o momento da parada nos boxes, Matchett fala bastante sobre como a Benetton trabalhou horas e horas para aperfeiçoar seu trabalho de box, e que ter a presença de Ross Brawn no time foi fundamental, graças à experiência deste no Mundial de Marcas, onde as equipes sempre fazem vários pit-stops.   

Após assistirmos toda troca de Schumacher pela câmera onboard do alemão, David Hobbs conclui que o empenho do time valeu a pena, já que a troca da Benetton teria sido “praticamente 1s mais rápida que a da Williams”. E dali em diante Matchett apenas conclui ressaltando a experiência de Brawn como crucial para conseguirem a liderança na prova. Mas nós já sabemos que a diferença entre os pit-stops foi menor que 1s.

E mais: mesmo que o pit da Benetton tivesse sido 1s mais rápido, não seria o suficiente para causar aquela diferença tão grande após os dois relargarem. O que nos leva à seguinte especulação: talvez, a própria equipe Benetton não tenha entendido como conseguiu assumir a liderança da prova.

Com isso em mente, Senna certamente não iria querer revelar o real motivo que o fez perder tempo. Se o fizesse, obviamente o brasileiro estaria dando de bandeja uma informação crucial, atraindo a Benetton para buscar situações parecidas. Dada a tendência que Ayrton tinha de fazer a pole-position, toda vez que Schumacher estivesse atrás dele, a equipe de Brawn poderia mandar seu piloto parar junto com o brasileiro para atrapalhar sua desaceleração e conseguir a crucial posição de pista.

Claro, uma coisa é Steve Matchett, mecânico do time, não ter entendido a situação. Por isso apenas não dá para afirmar que alguém como Ross Brawn não sabia dessa possibilidade. Talvez ele já tinha vivenciado algo assim nos tempos do Mundial de Endurance e mandou Schumacher parar junto com Senna para atrapalhar o brasileiro. Ou talvez tenha sido uma simples coincidência. 

Mas vale ressaltar que Ayrton reclamou com a equipe Williams: segundo o piloto brasileiro, o time teria montado o equipamento para reabastecer muito próximo à rampa dos boxes, diminuindo a área de desaceleração do piloto, obrigando-o a frear cedo demais. Senna, obviamente, não tinha nem ideia de que a partir do GP de Mônaco naquele mesmo ano, a FIA implementaria um limite de velocidade no pit-lane, algo que mudaria radicalmente a dinâmica da entrada e saída dos boxes para os pilotos. Mas esse já é assunto para outra conversa.

Não poderia encerrar esse texto sem mandar um agradecimento mais que especial ao grande amigo Arlindo Silva, que passou horas e horas explicando que Senna havia perdido tempo na desaceleração no pit-lane. Arlindo inclusive já contribuiu aqui no nosso espaço alguns anos atrás, e novamente nos ajudou de forma fundamental.

Por fim, se você gostou desse conteúdo, talvez queira lembrar como Schumacher começou na F1, aqui vai um link sobre aqueles dias de 1991.

Abraços e até a próxima!

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