Ecos

O fã da Motogp se deparou com uma imagem que há muito não tinha em vista no último domingo, na abertura do septuagésimo sexto campeonato mundial: uma vitória tranquila de um piloto experiente, que com espantosa tranquilidade “varreu” o fim de semana com o resultado perfeito: Pole Position, vitória na Sprint Race de sábado e a vitória no grande prêmio do domingo, amealhando os máximos trinta e sete pontos em disputa.

Marc não vencia a etapa inaugural desde 2014, ano em que também assombrou o mundo da motogp com a impressionante sequência de dez vitórias consecutivas, naquele que era o primeiro ano a defender um título mundial, conquistado um ano antes e no ano de estreia. Foi também a primeira vez que um debutante na equipe vermelha vencia logo na etapa inaugural desde Casey Stoner em 2007.

As impressões deixadas pelos testes de pré-temporada denunciavam sim, um cenário favorável ao piloto oito vezes campeão mundial, dada a rápida adaptação à Desmosedici GP24, que é o bólido escolhido pela equipe de fábrica pelo menos para o inicio do certame. As discussões da parte técnica sobre usar ou não as inovações no chassi do modelo GP25 e também as incertezas quanto às especificações de motor fizeram com que a abordagem fosse mais cautelosa.

Se isso teve ou não impacto na proximidade das equipes satélite (notadamente a excelente performance de Alex Marquez, que chegou em segundo nas duas provas logo atrás do irmão) e também de Morbidelli, somente o andamento do campeonato irá dizer.

Marc persegue o irmão Álex: estratégia para colocar os pneus na pressão correta e evitar penalidade

O fato de Bagnaia não ter oferecido um desafio direto nesta primeira etapa não é algo definitivo. O piloto #63 certamente adotará uma postura cautelosa e tentará diminuir ao máximo a quantidade de erros que lhe custaram o título da ultima temporada. Porém, como uma primeira amostra do tamanho do desafio que terá ao receber um piloto como Marc que tende a se agigantar na garagem vizinha, pode-se dizer que ele não passou no teste, ainda mais por ter sido derrotado por uma moto satélite e por ter sido acossado em alguns momentos pela sensação desta primeira etapa, Ai Ogura e sua Aprilia.

A reação entusiasmada da equipe juntamente com dall’Igna e Tardozzi após a vitória de Marc também dão indícios que o entrosamento, que é um dos pontos a favor do italiano não serão exclusividade somente de quem está lá há mais tempo. Marco Rigamonti, seu engenheiro, declarou que na questão da polêmica com a pressão errada dos pneus (que fez com que ele sabidamente recuasse para segundo para colocar os níveis fora da margem de uma possível punição), o que ocorreu além do ajuste errado foi que a condução dele estava tão suave que não estressou os pneus a ponto de alterar os níveis da pressão. Essa ocorrência com a pressão dos pneus deu um indício interessante de como a performance de Marc está acima dos rivais: ao detectar o problema (foi avisado no painel) na volta 6, deixou o irmão passar e o comboiou de perto até faltarem 4 voltas pro final, quando o ultrapassou e prontamente abriu 1 segundo e meio em 1 volta e partiu para a vitória.

Comemorando com a equipe: amostras de entrosamento já estão aparentes

Para além disso, o grande problema para Bagnaia foi que Marquez pareceu estar muito à vontade na moto e não precisou de muito esforço nem abusar dos limites para ser rápido, algo que era comum ser visto nos tempos de Honda, quando ele abusava dos limites dos pontos de frenagem e ângulos de inclinação para ser rápido, algo que se não era necessário, era inato do piloto, não sendo raro vê-lo protagonizar cenas de inúmeras “salvadas” e também quedas, mesmo quando tudo parecia estar sobre controle. Para se ter uma ideia de como o cenário é outro, neste fim de semana, Marc não foi ao chão em nenhuma sessão.

Como se isso não fosse desfavorável o suficiente, as próximas duas etapas são território muito bem conhecido do espanhol: a pista de Termas de Río Hondo, onde ele venceu por duas vezes, em 2014 e 2019 (esta última com a impressionante marca de 9s sobre o segundo colocado) e também o Circuito das Américas, onde ele venceu entre 2013 e 2018 e novamente em 2021.

Toda essa aparente tranquilidade ecoa os tempos em que Marc Marquez foi dominante, curiosamente as mesmas temporadas de 2014 e 2019 citadas: na temporada de 2014, onde defendia o título pela primeira vez. Foram 13 vitórias, sendo as dez primeiras consecutivamente; e 2019, quando fechou o ano com o recorde de pontos obtidos (420), sendo 12 vitórias e tendo como pior resultado a segunda colocação, obtida 6 vezes. Justamente no Circuito das Américas ele teve o único revés do ano, ao cair quando liderava com folga.

É cedo para dizer que o campeonato está ganho, mas o bicampeão italiano precisará cuidar para que o caminho para o nono título de Marc não seja tão fácil como aparenta ser.

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