Eu sei que você que tá lendo esse título deve estar pensando: E ABU DHABI 2021???
Ok, é um dia que falaremos a frente. É importante entender a conjuntura que a época nos trazia: em 1989, as informações e coberturas eram muito menores, e o ufanismo que envolvia aquelas épocas eram muito maiores. A tensão que envolvia o circo da F1 era muito parecido com o de 2021, com muito mais pessoas envolvidas, empresas, montadoras…
Enfim: 22 de Outubro de 1989, o dia da maior prova da historia da F1. Vamos relembrar todo aquele fim de semana?
Personagens:
Não só de Alain Prost (76 pontos até então e um descarte a fazer) e Ayrton Senna (60 pontos até então e sem descartes a fazer) aquele fim de semana foi feito… isso começa em Março de 1989, e envolve muitos protagonistas:
Nigel Mansell: Il Leone estava sendo cada vez mais Leone em 1989. Começando com uma vitória absolutamente inesperada em Jacarepaguá, na abertura da temporada, na estreia do câmbio Borboleta (desenvolvido por Roberto Moreno em Maranello), ficando 5 provas sem pontuar, e depois emendando 5 pódios seguidos, dentre ele mais uma vitória em Hungaroring, ultrapassando Senna nas voltas finais (comecem a notar os eventos que levaram o campeonato ao seu rumo). E a cereja do bolo foi Estoril, onde emendou um erro de local do pit stop, uma marcha a ré no pit-lane (proibido por regulamento), uma desclassificação pela direção de prova, e um abalroamento a Senna na curva 1 (OBS: Senna alega que não viu a placa de DSQ de Mansell e estava com problemas de rádio).
Gehrard Berger: O Austríaco esteve em alguns dos momentos mais importantes da temporada ( e dos seus rumos): Ele se chocou com Senna na largada de Jacarepaguá, sofreu o gravíssimo acidente em Ímola, na Tamburello (e saindo praticamente ileso, que é o que realmente importava), que causou a interrupção da prova e a famosa implosão da McLaren devido a quebra do acordo por parte de Senna, na versão de Prost, e da visão errônea do acordo por parte de Prost na versão de Senna. E, após o anuncio em Silverstone que não ficaria na Ferrari (sabendo que Prost estava a caminho) se dirigiu a Mclaren, para 1990.
Thierry Boutsen: O Belga finalmente tinha um carro vencedor nas mãos e venceu uma prova que foi decisiva no contexto do campeonato: O Gp do Canadá, que Ayrton Senna abandonou a três voltas do final liderando a prova, com motor estourado, numa sequencia terrível que chegaria a 4 provas sem pontuar.
- Stefan Jo
hansson: Sim, o sueco fez parte da historia do campeonato: Com a novata Onix-Ford, que tem historias impressionantes como o shakedown do chassis sendo realizado num kartódromo do RJ antes da abertura do campeonato, era ele que estava na frente de Senna em Hungaroring, que acabou titubeando e facilitando a ultrapassagem de Mansell; (o detalhe disso é que, Hungaroring, é a única prova que Senna pontuou em 1989 sem ser vitória) além disso, herdou o pódio em Estoril após o choque entre Senna e Mansell.
Chegamos a Suzuka:
O campeonato está muito próximo da decisão: Alain Prost chega a Suzuka com 76 pontos, e Ayrton Senna, salvando o primeiro knockdown em Jerez três semanas antes, com 60 pontos, porém, Senna ainda pode vencer o campeonato com duas vitorias: Por ter já queimado seus 5 descartes, os pontos das duas vitorias seriam plenamente ocupadas (18 pontos), enquanto Prost tinha descartado apenas 5 pontos até então, e teria que descartar ainda mais um resultado, com isso Prost só consegue pontuar com segundo lugar ou uma vitória. Dois segundos lugares automaticamente queimaria um no descarte…
Isso encaminhou um clima de tudo ou nada para a etapa, com Prost sabendo que a vitória encerra o campeonato que se mostrou bélico dentro e fora das pistas… Prost também sabia que se Senna simplesmente não pontuasse, o campeonato estava encerrado.
Tensão por todos os lados:
Jean-Marie Ballestre, que em 1988 já havia trazido a tona questões da Honda tratar seus pilotos de forma diferente, estava novamente em Suzuka, e com declarações ainda mais duras, o que despertou a ira da Honda e de Senna, cada vez mais convencido de que o presidente da FIA fazia o jogo de pressão que Prost queria. Michele Alboreto, ainda em Jerez, resume todo o jogo politico que a categoria vivia: Pelo que sei, Senna terá três Ferrari contra ele em Suzuka.

No paddock, o clima era pesadíssimo: Senna e Prost se evitam, se ignoram a ponto de Ron Dennis cancelar a coletiva de imprensa organizada pela Marlboro. Prost, extremamente desconfiado, fala apenas apenas com Neil Oatley e Tim Wright, seus engenheiros de pista (lembrando que toda a equipe de mecânicos já era 100% separadas e incomunicáveis a muito tempo). O que mais causa ira de Prost, é que um de seus chassis para o fim de semana, é o chassis que Emanuelle Pirro testou durante a temporada, portanto, bastante rodado: “Nem preciso dizer a vocês o que posso pensar sobre isso”, diz Prost, aos poucos jornalistas que conseguem alguma palavra dele nesse fim de semana. Ron Dennis, por sua vez, ordenou que a fábrica montassem novos chassis para Suzuka e Adelaide; porém um dado chama a atenção: É o sexto chassis do ano para Senna, apenas o segundo chassis do ano para Prost, que, em Jerez, perdera o chassis reserva: Até o fim do ano, o carro reserva sempre será de Senna.

Na mesma fala sobre o chassis, Prost verbaliza: Se Ayrton vier forçar novamente a sua passagem, tal qual Estoril 1988 e Silverstone esse ano, não abrirá a porta…
Pole, vantagem e mais reclamações
Como era esperado, Senna jogou tudo o que pode no treino para garantir a pole position, volta que é até hoje vista como uma das maiores voltas rápidas da história;
https://youtu.be/eG0p9TS1zXg?si=wzNjQOcAhTjDD1UW
Com 1,7s de vantagem sobre Prost, que, recai as suas reclamações aos motores Honda, casando perfeitamente com o que Jean Marie Ballestre falara semana antes, onde até mesmo cogitou se reunir com os engenheiros da Honda para que os motores dos dois pilotos fosses iguais ( essa situação iniciou em Monza, onde Prost alegava ter motores muito abaixo de Senna, com velocidade no fim da Reta 15km/h abaixo de Senna; por sua parte, Ron Dennis chama a imprensa para mostrar dados de Prost na Parabólica, alegando que o Francês chegava a fazer a curva 100kh/h a menos que Senna… Obviamente foi ridicularizado por tal informação).
O que Senna (e, praticamente ninguém na F1) esperava é que Prost havia armado uma estratégia totalmente surpreendente: Sempre avesso a pilotagens agressivas, com uma tocada polida, Prost sacou tudo que podia de asa do MP 4/5, enquanto Senna, ao ver que tinha aparentemente um carro com uma velocidade final muito acima de Prost, se propôs a um acerto com mais asa e pressão aerodinâmica: As posições estavam invertidas quanto aos acertos dos carros. E, para deixar ainda tudo mais complexo, Prost no Warm-up (treino com configuração de corrida que existia na época que era feito 4h antes da prova, no domingo) foi o mais rápido, com impressionantes 0,8s a frente de Senna…
Largada e inicio da história

Prost sabia que tinha um trunfo na mão: Ao ter o carro mais rápido de reta, e tendo a pontuação a seu favor, se tomasse a liderança na largada era 9 dedos na taça. E o francês tinha uma vantagem que até então não era discutida: Em Suzuka, a posição de largada do pole era por dentro, na parte menos emborrachada da pista. Portanto Prost juntara um carro acertado para velocidade final, e a posição de largada era melhor que a do Pole.
Na largada, tudo que Prost pensou deu certo: Tracionou melhor que Senna (que pelo segundo ano seguido largava com problemas em Suzuka) e assumiu a ponta; Dali em diante, a prova focou exclusivamente em Senna e Prost, que em dado momento abriu 5s do brasileiro, deixando todos com a certeza que estava caminhando para o seu terceiro título mundial, enquanto Senna teve a liderança em suas mãos apenas durante o pit stop de Prost, entre as voltas 21 e 24 (e, Senna teve um Pit-stop 2s mais lento que Prost) Enquanto isso, Berger abandonava na volta 34, Mansell na 43, Piquet que largara em 11º solido na 7ª colocação, e Nannini seguia sua prova no seu ritmo herdando a 3ª colocação sem maiores riscos.

Assim a prova se seguiu até a volta 40, quando a vantagem caiu consideravelmente, chegando em 0,5s e Senna iniciou a montagem da manobra que lhe deixaria vivo no campeonato. E, então , na volta 47, na freada da Casio Chicane, ocorre a manobra que todos conhecem, dissecaram, e que causou todas as polêmicas tão discutidas:

Esse material não pretende discutir novamente tudo o que ocorreu, toda a trama politica que aconteceu (como Prost estar na torre de controle após o choque, algo totalmente proibido), assim como a parte esportiva (que, sim desclassificava corretamente Senna, fato dito ao vivo por Galvão Bueno na transmissão da Globo: “O carro tem que ser empurrado, pegar e ele tem que virar para voltar” e não voltar ao traçado pela pista auxiliar após o acidente), mas ressaltarei a recuperação absurda de Senna ao buscar Nannini, que se tornou líder após o acidente. Detalhe: A vantagem de Senna e Prost para Nannini era tão grande, que Senna fez toda a volta com o bico quebrado no chassis e ainda passou na linha de cronometragem a frente de Nannini na volta 48, quando apenas perdeu a liderança para Nannini. Um detalhe pouco falado é que, Nannini, ao ser informado que Senna e Prost haviam batido, e sabendo que tinha uma vantagem confortável para Patrese, tirou o pé e rodou 3s mais lento que vinha fazendo antes, a pouquíssimas voltas do final, segurando equipamento e próximo da primeira vitória. Nannini que, após a prova, diria que tomou um enorme susto quando viu o Mclaren #1 nos seus espelhos.
Enquanto isso nos Boxes

Nos boxes desde a volta 47, havia movimentos frenéticos de vários expoentes: Ron Dennis corria para todo lado para garantir que Senna fosse atendido o mais rápido possível ao chegar ao Box. Flávio Briatore, vendo a possibilidade da primeira vitória da Benetton, já se movimentava para protestar a manobra do retorno de Senna.
Em meio a tudo isso, Prost voltava a pé para os Boxes e viu no telão da ultima curva, que Senna voltara para o pista. E corria para a torre de controle, onde cobraria Ballestre e Bruynseraede sobre a desclassificação de Senna.

Na pista, Senna passa Nannini na volta 51, no na mesma Casio Chicane, vence a prova no asfalto, mas não sobe ao pódio: Logo após chegar ao parque fechado, ele foi encaminhado para a Torre de controle, onde Prost lhe aguardava, e confrontado juntamente com Ron Dennis sobre a Manobra;

Desclassificação garantida, e pódio bem demorado para iniciar: Até que um comissário japonês chega com Boutsen (então quarto colocado), e pergunta a Alessandro Nannini se ele quer subir ao pódio em primeiro lugar… e assim, com o piloto que levou o troféu de vencedor que não teve o gostinho de receber a bandeirada em primeiro lugar, um vencedor na pista que não subiu ao pódio e um campeão que ganhou o título sem a equipe lhe apoiar o 22 de outubro de 1989 ficou marcado eternamente aos fãs de F1, e na minha opinião, assim virou a maior prova da história da F1.
