Começo essa coluna com 42 anos, 4 meses e alguns dias.
E quando iniciei a digitação, parei para pensar: Poder digitar sobre uma conquista de meio século atrás, de um piloto que atravessou praticamente incólume aos anos 70 da F1, perigosos e de evolução incontida; vitorias conquistadas na base da estratégia e do pé pesado, mas também com muito punho erguido mandando o adversário sair da frente… Contemporâneo de Jochen Rindt, Jackie Stewart, Niki Lauda, Graham Hill… James Hunt, Gilles Villeneuve, Jody Scheckter… Nelson Piquet, Alain Prost, Nigel Mansell, e na ultima fagulha ainda dividiu asfalto com Ayrton Senna; teve o desafio de levar a sua própria equipe, juntamente com o irmão, ao pódio, em casa, ver a equipe definhar, voltar ao Brasil, andar de Super kart no entorno do Mineirão, ir para os EUA, correr com um carro rosa, cujo proprietário era excêntrico ao ponto de jogar televisões pela janela do Hotel, e mesmo assim evoluir, aprender e dominar os segredos daqueles carros brutos, rústicos, potentes, perigosos… Receber o apoio da mesma tabagista que lhe deu a gloria que vamos falar hoje, voltar ao ponto de destaque no automobilismo mundial, um título, duas Indy 500, inúmeras vitórias…
Acima de tudo, essa coluna comemora sim, os 5o anos do nosso primeiro bi campeonato mundial de Fórmula 1, mas também é uma Ode a Emerson Fittipaldi, o Rato! Emmo, o homem que desbravou a fita das conquistas mundiais, que teve o seu primeiro título registrado pela voz do Pai, o Barão, para o país todo. E, que num 04 de Outubro de 1974, em Watkins Glen, nos EUA que iria lhe receber 10 anos depois para recomeçar a carreira, marcaria na pedra dos grandes nomes da historia da Fórmula 1. Viva Emmo!
Vamos a 1974?

Antes, um passinho atrás: Emerson estreou na F1 em 1970, no Gp da Inglaterra, ainda com o antigo 49c (N.R: Tem mais isso: Além de todos os feitos listados acima, ele estreou ainda na era charutinhos e parou de correr num chassis Penske em 1996, turbo, efeito solo, Super Speedway…), na equipe oficial da Lotus, tendo como companheiros Jochen Rindt (que disputava o campeonato mundial) e John Miles ( sob forte pressão, pelos resultados até então ruins, tendo até aquele momento somente um quinto lugar na temporada), e ao seu lado, com um equipamento igual, mas numa equipe privada, somente Graham Hill… ou seja, tinha uma estrutura para aprender de grandes nomes a sua volta, além, claro, de estar no guarda chuva de Colin Chapmann.
Assim seguiu nas etapas da Alemanha, Áustria até chegar em Monza, e a Lotus entregar aos seus quatro pilotos, modelos 72C. E a partir desse momento, a vida de Emerson mudaria radicalmente.

No inicio dos treinos, Colin Chapmann deixa sob responsabilidade dos pilotos o uso ou não de asas em Monza; Em épocas onde a aerodinâmica ainda empírica, o feeling disso era todo do piloto. Para Rindt, o carro sem as asas estava sob controle. John Miles não gosta, reclama dos acertos, mas é obrigado por Chapmann a ir com o mesmo acerto. No sábado, sem controle do carro antes da Parabólica, Rindt roda a mais de 200km/h, bate, destrói o chassis, e por uma enorme ocasião do destino, é degolado pela presilha do cinto quando a frente, aberta, fez que seu corpo deslizasse dentro do cockpit (Rindt, segundo as informações de época, tinha muito medo de incêndios, e afivelava apenas quatro pontos do cinto, ao invés dos cinco pontos, para sair mais rápido do carro…) Com isso, Rindt, que já estava praticamente acertado para sair da Lotus devido a convivência complicada com Chapmann, perece líder do campeonato, na prova onde poderia encerrar a fatura.
Em meio ao desespero, fuga de Chapmann da Itália para evitar prisão, declaração da morte de Rindt somente no hospital, mesmo saindo com o corpo coberto do atendimento, a Lotus precisa tomar uma decisão: Disputa a prova? garante o titulo de Rindt? abandona o circuito? A decisão é não disputar a prova, e partir para a perna da América do Norte para reorganizar a casa. (Mais uma N.R: Nessa prova, na hora da largada, apenas as cinco primeiras filas estavam estáticas. O restante ainda se movia quando da bandeira verde. Algo que, 9 anos depois, teria consequências terríveis para Ronnie Peterson).
Em Mont Temblant, Canadá, apenas Graham Hill aparece, porém o campeonato mantem-se seguro, com uma vantagem ainda de 22 pontos de Rindt para Ickx, segundo colocado. E, em Watkins Glen, o desafio da Lotus era enorme: John Miles se retirou, em homenagem a Rindt, e a equipe aparece nos EUA com Emerson sendo o piloto Líder, e Reine Wisell como segundo piloto. Mas isso não foi problema para Emerson, que na sua forma de conduzir, conservando equipamento, controlando a ritmo, venceu a etapa, em conjunto do quarto lugar de Ickx (que tinha largado na pole) garantiu, post mortem, o título a Rindt e a Lotus. E também garantiu a vaga de Piloto 1 da equipe a partir de então;

Para 1971, a Lotus se perdeu no desenvolvimento, e também sofreu bastante com os pilotos, passando pelos cockpits da equipe, alem de Emerson e Reine Wisell, Dave Charlton e Dave Walker, alem de tentativas frustradas como o famoso Lotus Turbina, usado em Monza. Para 1972, além das novas cores (as cores miticas da John Player Special), outro sueco chegava na equipe e, esse traria a competitividade que faltava: Ronnie Peterson viria para ajudar a equipe, e, isso impulsionou Emerson para o primeiro título.
Para 1973, a questão da divisão da equipe desgastou o relacionamento entre Emerson e Chapmann (Emerson sempre isentou Peterson da situação), de forma que, com uma disputa interna na equipe, fez com que a Lotus perdesse o título para Jackie Stewart, da Tyrrell, e a classificação do campeonato mostra que, se houvesse foco em qualquer um dos dois pilotos, a Lotus venceria o campeonato: Stewart foi campeão com 71 pontos e 5 vitorias; Emerson foi o vice com 55 pontos e 3 vitorias e Peterson foi o terceiro com 53 pontos e as 4 vitorias, curiosamente todas após Mônaco, onde Emerson era o Líder do campeonato e Peterson marcou os primeiros pontos da temporada.
Para 1974, Emerson buscou novos rumos: Com o apoio da Marlboro, se transferiu para a Mclaren (N.R: Oficialmente, apesar de todos saberem que Emerson e Denny Hulme, seu companheiro, eram pilotos McLaren, eles competiram sob a tutela de Texaco Team Marlboro, enquanto o time “oficial” era inscrito sob o nome de Yardley Team Mclaren, onde andaram Mike Hailwood, David Hoobs, e Jochen Maas)

Para essa temporada, a equipe apresentava o M23, com o motor Cosworth DFV V8 tradicional e pneus Goodyear, e a equipe começou muito bem: Denny Hulme venceu em Buenos Aires e uma vitória consagradora (a segunda) de Emerson em Interlagos.

As vitórias foram se espalhando entre os pilotos, e o principal concorrente durante a temporada foi Clay Regazzoni, da Ferrari. Além de Regazzoni, as vitorias de Ronnie Peterson, Jody Scheckter, Niki Lauda e Carlos Reutemann, ajudaram Emerson, que venceria novamente em Nivelles (Alias, Emerson é o único vencedor no traçado Belga, nos dois anos que ele esteve presente no campeonato mundial em 1972 e 1974).

Numa temporada onde sete pilotos diferentes venceram, Emerson e Regazzoni passaram a temporada toda trocando a liderança, até irem para a ultima prova em Watkins Glen empatados com 52 pontos para cada um (lembrando a regra de descartes da temporada: 7 melhores resultados nas primeiras 8 provas e depois 6 melhores resultados nas 7 provas finais), com a vantagem atual para Emerson, por ter três vitorias no ano, com a importantíssima vitória na prova anterior, em Mosport Park, no Canadá.

Para Glen, a Ferrari tem um problema relativamente sério: A equipe testou em Glen uma semana antes da prova, porém Regazzoni bateu e lesionou o tornozelo. Isso deixa a McLaren mais confiante, pois o modelo M23 está cada dia mais acertado. E Denny Hulme certamente será uma ajuda importante: O campeão mundial de 1967 decidiu se aposentar, aos 38 anos, e quer acabar a carreira de forma positiva. No grid Emerson e Regazzoni largam juntos, em oitavo e nono lugar, respectivamente, com a pole de Carlos Reutemann, com a Brabham que dominava o fim da temporada.

A prova inicia-se com tumulto já no grid: Mario Andretti teve problemas de bomba de combustível, e a equipe Parnelli providenciou o conserto ainda no grid, o que foi considerado ilegal. Enquanto isso, José Dolhem, da Surtees, estava afivelado no cockpit aguardando a oportunidade ( ele era o primeiro a não ter se qualificado: Outros tempos da F1…) e acabou largando…
Na volta 10, o outro carro da Surtees, causou uma das ocorrências mais trágicas da F1: A morte de Helmut Koinigg, que acabou passando por baixo do guard rail e foi decapitado. A cena da prova seguindo, normalmente, com o carro de Koinigg coberto com um pano branco, do lado de fora exemplificava o que era a F1 nos anos 70.
A prova se desenrolou com Regazzoni caindo cada vez mais, e Emerson subindo, e uma grande prova de José Carlos Pace, que estava em terceiro lugar, enquanto seu companheiro Reutemann liderava a prova com folga, sendo guindado a segunda colocação ao fim da prova, mesmo com Costelas quebradas, devido o cinto se soltar no inicio da prova e ele bater na lateral do cockpit…

E, Emerson Fittipaldi, cruzaria a linha de chegada na quarta colocação, e Regazzoni apenas em decimo primeiro. O Brasil era bi campeão mundial de F1, com a Mclaren, que também nos traria mais títulos anos depois, e Emerson Fittipaldi era elevado a ser um dos maiores nomes da historia em 06/10/2024;

Abraços a todos e até a próxima!