18 de Outubro de 2009. Interlagos, Brasil. A Fórmula 1 via, talvez, uma historia, até comum nos anos 70, ser realizada perante toda a tecnologia do século 21.
Ao fim do Grande Premio do Brasil, ao sair do seu BGP 001, Jenson Button se tornaria campeão mundial de F1. Até aí, nada demais. Afinal, Jenson foi considerado a grande esperança inglesa após a sua estreia em 2000 pela Williams, sendo superado pela chegada meteórica de Lewis Hamilton em 2007 na McLaren. O que torna a historia lúdica e até admirada pelos fãs da categoria, é que Jenson aparentemente estava caminhando para o ostracismo da carreira após a queda vertiginosa da Honda, que lhe proporcionou a primeira vitória em 2006, em Hungaroring, porém, a partir do ano seguinte despencou no grid da F1.
Para explicar isso, vamos voltar 10 meses antes: 05 de Dezembro de 2008.
Jenson Button na entrada do S do Senna: O titulo veio no ano mais improvável.
Em um comunicado que pegou todos totalmente de surpresa, a Honda oficializou a saída de sua equipe da Fórmula 1, nas palavras do chefe executivo Takeo Fukui. Ele divulgou o encerramento do departamento de competições Honda Racing e colocou a estrutura do time à venda.
A decisão foi tomada quando a alta cúpula da Honda se reuniu no Japão e foi alegado que a diretoria “cansou de amargar dívidas milionárias do projeto e não ver resultados efetivos na pista.”
Fukui foi além no comunicado:
“Esta difícil decisão foi tomada para reagir a essa repentina e expansiva fraqueza do mercado em todas as áreas. No reconhecimento da necessidade de aperfeiçoar a distribuição de recursos, decidimos abandonar a participação na F-1” Para ter uma ideia do cenário em 2008, a Honda teria investido US$ 398,1 milhões na categoria (cerca de R$ 982 milhões), quarto maior orçamento da F-1, atrás apenas da rival Toyota, da campeã da temporada McLaren e da vice campeã Ferrari, porém o desempenho foi foi de apenas 14 pontos, sendo a nona e penúltima colocação no Mundial de Construtores. Junta-se a isso, que a Honda anunciou nesta semana uma queda de 32% nas vendas nos EUA, sendo o pior desempenho nas vendas da montadora em 27 anos de operação no mercado.
Porem, dentro do comunicado, uma frase deixou ainda aberta uma ponta de esperança: “Falaremos com os associados da Honda Racing F1 Team e seu fornecedor de motor Honda Racing Development sobre o futuro das duas companhias. Isso inclui oferecer a equipe à venda”
Ross Brawn e Nick Fry, então chefe da equipe e diretor executivo, viajaram à Tóquio na semana seguinte, buscando um acordo com a gestão da montadora, e, nesse interim, Brawn estaria negociando com fornecedores de motor para manter a equipe ativa na categoria. E aqui, é importante salientar que, seria a segunda equipe a sair da categoria em poucos meses: Curiosamente, a segunda equipe da Honda, a Super Aguri, havia falido no meio da temporada; A Fórmula 1 se via na iminência de ter apenas 18 carros no grid em 2009. O tempo estava correndo, e a categoria se via em uma situação bastante incomoda.
Esse movimento da Honda impactou diretamente o mercado de pilotos brasileiros na F1: três pilotos brasileiros estavam na torcida para solução da questão: Bruno Senna, Rubens Barrichello e Lucas di Grassi estavam em busca do segundo cockpit da Honda ( já que Jenson Button estava confirmado na equipe).

Finalmente uma solução… E surpresas técnicas!
Se passaram três meses, quando finalmente em 06 de Março de 2009, a Honda anunciou que Ross Brawn havia adquirido o espólio da equipe, que se chamaria a partir de então Brawn GP Formula 1 Team. Aqui o Conto de fadas se torna bem moderno.
Apesar de toda a imprensa praticamente confirmar que a Brawn usaria motores Ferrari, surge a primeira surpresa: Ross Brawn anuncia o uso das usinas alemãs da Mercedes, os F0 108W. Aqui, Ross Brawn começa um movimento histórico, pois ele estava implementando ali um motor que casa totalmente com a característica do chassis. E, a mudança de regulamento para 2009 foi fundamental para isso, ainda mais na hoje famosa “área cinza” que aquele regulamento tinha.

A troca de regulamento trouxe um enorme desafio: Gerar todo o apoio aerodinâmico retirado, com a asa dianteira mais baixa, e a asa traseira mais alta (Como sempre, a F1 atrás de um regulamento que limpe o ar para o piloto que está tentando a ultrapassagem…) Porém, Ross Brawn, já vinha trabalhando no que seria o RA109, se tornando o BGP 001, na peça que se tornou a mais falada daquele 2009: O difusor duplo!

A criação aerodinâmica da peça, foi fundamental para Ross Brawn buscar o acordo com os motores Mercedes, então o mais forte da categoria, porém, também, o de medidas mais próximas da ideal para a funcionalidade do Difusor Duplo. Faltavam 3 semanas para o mundial, e a Brawn tinha que, literalmente, fazer o carro funcionar (N.R: Importante salientar que, a Honda manteve a operação funcionando, até o fechamento da compra por Ross Brawn. Portanto, o carro não nasceu dia 05 de Março, A gestação dele foi “normal” até aquele momento)
Além da Brawn, a Williams e a Toyota tinham a peça, e após os testes de pré temporada em Barcelona, onde a Brawn começou a se apresentar, as demais equipes protestaram contra a peça perante a FIA, que não anunciou nenhuma decisão final antes da primeira prova, somente sugerindo que aquelas três equipes não deveriam utilizar as peças em questão na Austrália.
Após uma inspeção na semana da prova de Melbourne, os comissários declaram os carros legais. Foi marcado para 14 de abril um tribunal para julgar em definitivo o apelo das equipes, data proxima da 3ª corrida do ano, e a FIA apoiou os seus comissários após muita discussão, encerrando a questão.
E, quem vai ser o segundo piloto?

Aqui, diria Rodrigo Mattar no TBT sobre a Brawn que fez no seu canal A Mil por Hora, veríamos um conto de fadas (bem moderno): Ainda em Dezembro de 2008, Rubens Barrichello foi até a Inglaterra e se colocou a disposição de Ross Brawn caso a equipe fosse adquirida por ele para 2009. Mas, as expectativas do negócio (e a demora na assinatura) punha tudo sob total desconfiança.
Ao ponto de que, em fevereiro, Barrichello literalmente fez plantão em frente a fábrica, em Brackley, no seu trailer, dias antes da assinatura do management buy-out (operação de compra que pode ser feita por funcionários internos ou externos à empresa) realizado por Ross Brawn com a Honda. Até que, dia 06 de março, um dia depois do anuncio, estava Jenson Button dentro do BGP 001 e Rubens Barrichello encostado, no cockpit, ouvindo todos os detalhes. Sim, Rubens Barrichello era confirmado, a principio nas primeiras quatro provas do ano, como piloto do Brawn. Porque apenas quatro provas: O carro estava sendo apresentado majoritariamente alvo, sem qualquer tipo de patrocínio financeiro, apenas os técnicos.

Temporada dos sonhos.. até a metade!
A temporada inicia, e a Brawn aproveita todo seu potencial. Vitorias de Button em seis das primeiras sete provas do ano (apenas interrompida por Sebastian Vettel na China) e com Rubens Barrichello tendo algumas dificuldades com o sistema de freios da equipe (como a equipe tinha materiais restritos, a marca de freios que a equipe tinha não casava com a forma de Barrichello pilotar, coisa que durou até Silverstone) e mesmo assim com três pódios, um quarto lugar e dois quinto lugar. Porem, a vitória de Vettel em Silverstone abriu um novo momento no campeonato.

As demais equipes buscaram o desenvolvimento dos seus carros, e a Brawn, até por dificuldades financeiras para manter o ritmo de desenvolvimento, começou a perder terreno. A vantagem de Button, e a campanha competitiva de Barrichello começava a ser alcançada pela RedBull Renault, e na sequencia pela Mclaren ( com a vitória de Hamilton em Hungaroring).
Finalmente a numero 100 do Brasil!
Em Hungaroring, um momento muito tenso para a F1 e para o Brasil que teve seus dois pilotos no grid envolvidos: Ao terminar a sua participação na parte 2 do treino, uma mola cai da suspensão traseira de Rubens Barrichello e fica quicando no asfalto, atingindo em cheio o capacete de Felipe Massa, que havia saído da curva 3, entrando na reta onde a mola caiu; O brasileiro seguiu reto, batendo de frente nos pneus sem esboçar qualquer tipo de reação, e com o motor acionado, pressionando freio e acelerador ao mesmo tempo. A imagem, divulgada alguns minutos depois, deixou todos em choque:

Após alguns dias de agonia, onde Felipe Massa ficou internado no hospital na Hungria com traumatismo craniano e concussão cerebral, a temporada seguiu, e aportou em Valência para a etapa 11 daquele ano. Após uma prova onde fez uma estratégia vencedora, Rubens Barrichello venceria a prova, voltaria a disputa do título, e marcaria, naquela tarde, a centésima vitória do Brasil da F1, homenageando Felipe Massa no seu Capacete.


Barrichello venceria novamente em Monza, em dobradinha com Button, que a essa altura controlava com um desempenho consistente e inteligente a sua vantagem no campeonato, tendo apenas um abandono, e ainda por acidente, na Bélgica, etapa onde Barrichello não conseguiu capitalizar a saída de Button em muitos pontos (chegou, inclusive, com o motor fumando bastante). Era a terceira vitória de Barrichello em frente aos Tifosi, e manteve a esperança de título até a prova de Interlagos, onde conquistou uma das poles mais comemoradas da historia de Interlagos (porém, com pouco combustível e dependendo de uma estratégia arriscada), enquanto Button era apenas o 14º colocado.
Na prova, um acidente na largada que envolveu Webber, Trulli e Sutil, e mais a frente Alonso já arruinou a estratégia, e um pneu furado, mais ao fim da prova, após sofrer uma ultrapassagem de Hamilton acabaram com a chances de Barrichello, e iniciando a festa de Jenson Button no autódromo Paulista.

Mark Webber vence a prova ( e, deixa claro qual equipe daria as cartas a partir de então, juntamente com Sebastian Vettel, que acabou ratificando o vice campeonato em Abu Dhabi) e, a F1 via na sua frente, uma historia digna dos anos 70, como diz Milton Rubinho: um corajoso, alguns mecânicos, um chassis, um motor, pneus e um sonho podia dizer que competia na F1. Foi uma forma moderna, com um carro estudado, dissecado, e que teve um impulso decisivo dos ienes da Honda, de homenagear as garagistas, mas a Brawn possivelmente levará para a eternidade uma marca: A equipe que disputou 1 campeonato, e foi campeã nele.
Para 2010, a Brawn foi vendida para a Mercedes Benz, Ross Brawn ficou alguns anos ainda na equipe, Nick Fry ficou até março de 2013 na Mercedes, sendo substituído por um certo Torger Christian Wolff, Button foi para a McLaren e Barrichello (que, recebera o convite de ir para a McLaren antes de Button) assinaria com Frank Williams. A partir daí, a historia seria reescrita, com novos nomes..
Abraços a todos e até a próxima!
Excelente, foi um temporada muito gostosa de acompanhar, antes, durante e depois, o que os carros eram feios, tivemos de beleza nas pistas! Saudades de me iludir com um possível título brasileiro!
Certamente Rubens! Foi uma temporada que grudamos na frente da TV com a esperança que foi acalentada durante muitos anos do título de Rubens Barrichello. Obrigado pela participação e compareça sempre!