Gianna e Sandro

Com perdão da má palavra e aos fãs da sempre monumental Shakira…

Mas “Dai Dai” ser a “melhor musica de Copa de todos os tempos” me soa um acinte daqueles para quem gosta, de fato, de musica.

Nada contra, os “especialistas” que cravaram esta tem memória curta pra lembrar que coisas melhores saíram, até mesmo da própria colombiana (vide Waka Waka).

No entanto, vou mais além, e falar de “musica de Copa” obrigatoriamente passa pelo livro de história. E neste quesito não há quem tenha acertado mais a mão do que o lendário Giorgio Moroder.

O italiano, um dos pioneiros da produção musical italiana, acertou no alvo ao criar a melodia apoteótica de “Un’estate Italiana” em 1990 e confiar sua gravação em italiano as vozes de Edoardo Bennato e Gianna Nannini. Era a primeira Copa a ganhar uma distinção musical como aquela.

Lá estavam eles, naquela tarde milanesa, quando dada a abertura da Copa italiana e da zebra verde-amarela-vermelha de Camarões pra cima da Argentina de Maradona. Bennato e Nannini juntos enchendo a voz pra milhares.

 

Intensa na voz rouca e no puro Rock: eis a irmã mais velha, Gianna Nannini

Gianna entre Edoardo Bennato e Diego Maradona. "Un'estate Italiana" foi o primeiro tema feito para uma Copa, pelas mãos do também italiano Giorgio Moroder

Gianna tem uma voz intensa, posturas intensas e atitude de uma “Rita Pavone moderna” no palco. As canções da moça de Siena trouxeram a rouquidão natural de sua voz e letras intensas, acompanhadas pelo peso de guitarra que renovou a canção italiana, muito além do lado romântico que a rotula.

Se revelou para o som em 1979, com a intensa “América” e se tornou uma queridinha da canção da terra da bota. Além do palco, era licenciada em Filosofia pela universidade da terra natal, Siena, famosa esta pelos seus “pálios”, corridas de cavalos em clima puramente selvagem que, até hoje, tomam conta ferozmente do centro daquela cidadela.

Alias, Gianna era intensa como um pálio no palco, e o irmão mais novo fazia valer a velocidade natural das corridas medievais como um as do volante. Cinco anos mais jovem e enquanto a irmã arrebatava corações em Montreux em 1986, ia mostrando as credenciais na categoria-maior o jovem Alessandro, nas primeiras de suas tão breves 78 corridas.

Mesmo com a frágil Minardi de primeiros tempos, aquele jovem piloto que começou no motocross e chegou a dividir o tempo como piloto Lancia nos protótipos conseguia colocar aquela barca preta-e-amarela em grids intermediários. Dois anos em Faenza já foram o suficiente para impressionar o paddock e o levar para o time das “cores unidas” em 1988.

Primeiros passos, na Minardi em 1986: Sandro coloca o time de Faenza em grids intermediarios
Japão, 1989: Já na Benetton, entre Riccardo Patrese e Thierry Boutsen, a incredulidade da vitória improvável no dia da polêmica com Ayrton Senna
Em 1990: a carreira promissora interrompida por um acidente de helicóptero

Foram dois pódios no primeiro ano e, no segundo, uma vitória improvável como coadjuvante de luxo num dos momentos mais controversos da F1 naqueles idos: o GP do Japão de 1989 e a polêmica desclassificação de Ayrton Senna pelas mãos da patriotada de Jean-Marie Balestre, o que levou Alain Prost ao titulo daquele ano.

Sandro foi consciente mesmo travando tudo na manobra final de Senna na mesma chincane polêmica e usando da mesma manobra que usara com Alain Marie. Tempo depois, a reação que se via no pódio, ladeado pela dupla da Williams (Patrese e Boutsen) era de mais incredulidade do que alegria.

Foi um bom presságio para 1990, mas um grande ano acabou abruptamente num acidente de helicóptero. Teve sorte de não perder um braço mas teve de deixar o bom tempo de Benetton e, nos anos seguintes, encontrar outros rumos. Fez bonito na Alfa Romeo nos bons momentos do DTM/ITC e encerrou a carreira de piloto em 1998 e foi trabalhar com cafés (rede de cafeterias).

E talvez a coisa mais legal e pouco lembrada daquele tempo eram os momentos (raros, diga-se) que Sandro e Gianna se encontravam, seja ele prestigiando alguma apresentação da irmã ou ela, em alguns paddocks da vida, indo abraçar o maninho mais novo antes de algum daqueles “pálios” de carrinhos coloridos.

Era aquela dualidade entre a arte e a velocidade, o esporte e a música vindos da mesma familia, e quis o o destino que fossem italianos, onde a coisa é bem mais tratada a séria do que outro elemento. E ainda nesta, ecoa aquela triscada no mundo tão diferente de futebol quando Galvão Bueno, ao ver Gianna em plenos pulmões, lembrava a audiência “ela que é irmã do piloto de F1, Alessandro Nannini”.

De novo, nada supera “Un’estate Italiana” em matéria de música pra Copa. E tinha que ter uma voz italiana nisso.

Ou melhor, tinha que ter um Nannini nisso, não?

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