Não perde mais, Alessandro Zanardi…

Os heróis da nossa infância estão se indo tão rápido…

Vou lembrar aqui, com certa dificuldade em escrever, das tardes pueris de domingo, as mais velozes da minha vida.

Quando meu primo, o hoje biólogo Dr. Harry Boos Jr., me avisava que ia começar mais uma corrida da CART (Indy nos tempos de cisão) pelo SBT.

Eu não perdia uma e me irritava com o Gugu e o Domingo Legal pela demora em passar o horário.

E quando vinha, a tarde ficava pequena: Téo José bradava sua saudação inicial e Dedê Gomez trazia os detalhes via o famoso “scanner” que tinha consigo.

Era criança demais para perceber. Algo nos tinha incutido que existia algo além da F1 para ser visto, vibrado, emocionado e torcido.

Os brasileiros lá estavam: Gil, meu xará, Big Mo, Moreno, Christian, as vezes até o Gualtinho. A esperança era celebrar uma vitória dos nossos, coisa que eu não sabia que existia do outro lado do Atlântico nos tempos pós-Senna.

Mas, sempre tem um “vilão” favorito. O cara imbatível, imparável, vestindo um traje que nos fazia arrepiar ou enraivecer quando um dos nossos perdia a luta para ele.

E apesar da “pompa” vilanesca, não tinha como se ter raiva ou descontentamento com ele na pista.

Não era um americano, o “da casa”. Podia ser chamado de penetra ou de “estraga-prazeres” deles todos. Chegou por lá sem rumo, quase num tiro cego, descreditado pela categoria maior mas guardando suas armas no bolso.

Quando assumiu uma das carruagens vermelhas de Chip Ganassi, talvez houvesse quem duvidasse dele. Só que existem casos em que algo lhe serve como uma luva, parece até fácil deslumbrar e domar a velocidade e, ainda assim, não perder o sorriso largo típico de quem vinha da terra da bota.

Um dia, no saca-rolhas mais famoso do mundo, pintou aquela que seria sua assinatura de ousadia e alegria na pista.

O hoje “senhor” Bryan Herta o procura até hoje, fez levantar Teócles da cadeira, gritando com aquela voz forjada no chão esmeraldino o seu nome sempre cheio de pompa: “Alessandro Zanardi!”.

Ah Zanardi, quem podia te parar? O filho da Emilia-Romagna era o mais amado vilão dos brasileiros em pista naquelas curvas infinitas e ovais intermináveis dos EUA e proximidades.

Um desconhecido que virou atração, que nem de longe era visto como um Zé Ninguém nos fundões de grid da F1 européia.

Por mais momentos que vivi no automobilismo, meus olhos ainda brilham como a mesma criança de 6, 7 e 8 anos de idade com aquela carruagem encarnada, rasgada as laterais com um raio vigoroso, com a pompa de um gladiador sorridente.

Aquele que podia nos dar tristeza por uma derrota em suas lutas, mas que nos fazia sorrir a cada rosquinha desenhada no chão pela borracha de seus pneus.

Zanardi virou sinônimo de Indy, de CART, de oval, de Chip Ganassi.

De corrida nos EUA, de tarde de domingo veloz, de zerinho no pós-prova.

De Téo, Dedê e Celso Miranda.

Só o simples sibilar de seu nome era como voltar no tempo onde o mesmo italiano calava críticos e provava pra nós mesmos que havia mundo além da F1, e ele era tão bonito e veloz quando aquelas máquinas europeias as vezes tão engessadas e distantes.

Nem mesmo quando as curvas da vida quiseram de tirar mais cedo de nós, o bolonhês parou. Lausitz podia ser sua morte, mas foi o turning point de uma vida imparável.

A velocidade lhe tirou as pernas, mas não a vontade de vencer e superar momentos adversos no caminho. Partiu do volante pras bicicletas de mão, e o mundo paraolímpico teve a chance de conhecer este mesmo italiano sorridente que nós conhecemos um dia, recheando o peito de medalhas.

Alessandro Zanardi é uma daquelas lembranças boas de nossos primeiros anos velozes na vida.

Sorte nossa termos, hoje, a lucidez para contemplar, falar sorrindo e agradecer aqueles dias de deslumbramento pelas pinceladas que dava na pista, das manobras imprevisíveis e, sobretudo, das tantas e tantas lições de superação que colecionou como exemplo.

Parar nunca foi a opção de Alex, a não ser se a vida o parasse, e não foi por falta de “tentativas” em que ela falhou miseravelmente… até hoje.

E como a lei dela própria é implacável, ela parou o italiano voador, restando a nós uma dolorida saudade do sorridente bolonhês e sua carruagem vermelha raiada a mais de 300 por hora vencendo e festejando entre zeros e rosquinhas.

Que soe exagerado e até paranormal, mas… em algum lugar, com tanto vencido e superado, ainda posso ouvir Téo dizer, como um fim de corrida: “Não perde mais, Alessandro Zanardi”!

Grazie, Alex!

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